Por exemplo: Caxundé
A voz ancestral dos oprimidos

Não entendemos tudo que é dito em "Por exemplo: Caxundé" (BRA,1976), criação coletiva dos alunos de cinema da ABD, sob a batuta discreta e generosa de Guido Araújo. E se isso acontece é menos por uma limitação técnica, a captação direta do som, do que pela vertigem do que é falado pelos protagonistas dessa espécie de "estudo de caso", que o próprio título do documentário referencia. É como uma voz ancestral, reprimida por gerações incontáveis, que, ao contato com a câmera, se liberta pelo instante fugaz e frágil da duração de um rolo de película.

 

Pensamos no projeto utópico que deve ter motivado tal reunião, entre aspirantes a cineastas, o "pedagogo" Guido e  "os invasores" que, sem alternativas, (re)começavam, uma vez mais, a ocupação da periferia de Salvador. Em comum a todos eles, a busca por um espaço, um território, quer seja para viver, expressar-se ou criar as condições de mudança e conscientização. Naquele momento, os envolvidos estavam em pé de igualdade. Aos jovens realizadores, o desejo de ingressarem num meio de expressão de origem industrial e inclinação escapista para o fazê-lo (também) ser um instrumento de registro do real à margem dos interesses econômicos inerentes à sua produção. Para Guido, a oportunidade de confrontar a teoria à prática nesse "campo de batalha" que é o cinema (para lembrar o que dizia Samuel Fuller). Enquanto os moradores de Caxundé, enfim, tinham a chance de falar, nem que fosse apenas para a equipe de filmagem. Sob qualquer ângulo, mentor, alunos e habitantes do lugar, por diferentes razões e apesar dos esforços, continuavam fora do quadro.

 

Provavelmente,  resulta daí a opção em construir, para além de uma imagem capaz de revelar aquela realidade social, uma voz, um discurso próprio,  de modo que a narração em off, com as contextualizações informativas tão tradicionais nos documentários da época,  vai progressivamente cedendo lugar aos sons quase febris de quem ocupou Caxundé e agora finalmente chegou ao centro do plano. 

 

O depoimento que encerra o curta dá conta dessa torrente por tantos anos represada. Diante da crescente velocidade da fala do morador, que beira o ininteligível, percebemos que não são as palavras, a pronúncia  ou o encadeamento delas o que importa. Tudo foi dito enquanto durou o plano. Isso nós entendemos. Nada poderia ser mais contundente e justo para traduzir como eles viviam, a exclusão que lhes fora imposta. E esse eco perene da indignação permanece conosco a nos lembrar da força e importância de "Por exemplo: Caxundé" ainda hoje.

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