A mise-en-scène, doce obsessão

 

Tudo é mise-en-scène. Bem o sabemos desde os idos do cinema, quando os Lumière fizeram a primeira escolha, quando posicionaram a câmera naquele ângulo e não em outro. Mas o que “Garota Exemplar” (Gone Girl, EUA, 2014) renova de maneira implacável é o lugar da encenação nos dias de hoje. Ben Affleck é o caipira charmoso, algo ingênuo e deslumbrado, que é feito de marionete pelas duas maiores forças contemporâneas: a mídia e a cultura da celebridade, uma intrínseca à outra, é claro, ainda que David Fincher prefira trabalhar essa dualidade quase como um campo/contracampo sobre a América profunda (as donas de casa das cidades pequenas e dos matutos escroques) e a civilização (escritores, advogados, policiais, jornalistas...). A seu modo volumoso, empilhando texturas, personagens, clichês e arquétipos recém consagrados, o cineasta norte-americano não poupa ninguém – sequer a si próprio ao abraçar também o kitsch, as reviravoltas na trama e a narração over tal e qual os romances policiais de segunda linha.

 

Aqui, por mais divergentes que sejam os pontos de vista, a percepção das coisas, não há aquela busca wellesiana pela verdade em meio ao simulacro, apenas esse naturalismo histérico que nos consome, a superfície plácida e misteriosa encerrada no corpo (“tenho vontade abrir o seu crânio para saber o que se passa na sua cabeça”, já o disseram), o papel que a cada um cabe representar. A disputa pelo controle dessa representação é o que impulsiona este “Garota exemplar”, filme essencialmente de mise-en-scène e sobre mise-en-scène , em que tudo é desencadeado por um possível assassinato, mas cujo único assassinato, de fato, é filmado tão prodigiosamente que já não é possível escapar da sua encenação. Nada existe fora da mise-en-scène. Como Affleck, nos rendemos a quem está no controle.

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