Em memória de Jean Rollin

“Il faisait fort joli aujourd'hui au cimetière du Père-Lachaise, mais glacial où je me suis rendue aujourd'hui déposer des fleurs pour mon ami Jean Rollin. Trois années déjà, qu'il a rejoint par delà des brumes de l'hiver, les fantômes de ses personnages errants très certainement dans ce cimetière dans lequel il affectionnait tant tourner.

Marchant dans les feuilles mortes jonchant les allées du cimetière sous le soleil hivernal couchant dont les rayes mordorées filtraient par les frondaisons dépouillées des arbres, je me remémore, ce jour froid et neigeux d'il y a 3 ans où Jean franchissait la barrière invisible de l'imaginaire pour rejoindre ces personnages qui m'ont tant fait rêver… Je me souviens aussi des jours heureux des tournages dans ce cimetière, où nous avons partagé tant de bons moments”

Par Véronique Travers

 

Acessem : http://lesfilmsabc.free.fr/JeanRollin.Cineaste-Ecrivain/index.html#.VAPQhGOm3IU

Era uma vez no Oeste
A antropofagia do western*

“Era uma vez no Oeste” (Once Upon a Time in the West, 1968) é o mais belo gesto antropofágico do western spaghetti. Sergio Leone, o realizador, estava habituado aos filmes de gênero. Iniciou sua carreira nos peplum (os épicos italianos conhecidos como “sandália e espada”) até filmar, sob pseudônimo norte-americano, “Por um punhado de dólares”. Era uma época de crise da indústria cinematográfica, nos EUA e na Europa. O avanço da televisão, mas, sobretudo, a desilusão com o cinema, que demorou a apresentar imagens dos campos de concentração na Segunda Grande Guerra Mundial, teve um impacto geracional e econômico decisivo nos rumos da produção nas décadas de 1950 e 1960. A Itália, num primeiro momento, foi beneficiada com a ocupação dos EUA no pós-guerra. Os estúdios mediterrâneos, como a Cinecittà, abrigaram as filmagens de produções tão distintas quanto “Ben-Hur”  e “A Princesa e o Plebeu” em razão dos baixos custos de locação.  Mas logo os filmes em grande escala, mesmo em Hollywood, iriam ceder lugar às fitas de orçamento reduzido. O faroeste à italiana era um meio de sobrevivência.

Neste contexto, “Era uma vez no Oeste” é também o ápice de uma fórmula francamente comercial, mas que ultrapassa sua intenção meramente mercantil. É o contraponto do álibi autorista, do filme engajado ou independente que já naquela época começava a outorgar uma qualidade a priori e não que se provava na realização, na tela.

Ao se apropriar da narrativa de fundação por excelência do cinema norte-americano, o western, Leone reconfigura um gênero já em decadência nos EUA, atribuindo-lhe não apenas um lastro europeu (em voga naqueles tempos), como, sobretudo, uma liberdade formal capaz de transgredir, no seio do classicismo, os códigos e clichês consagrados por Hollywood. Os super closes, a extensão temporal dos planos e o tom operístico da mise-en-scène ilustram essa sutil revolução conjurada para as grandes massas.

Leone estava na contramão e incólume aos modismos. Daí resulta grande parte da perenidade assombrosa de “Era uma vez no Oeste”. Um filme pessoal e visceralmente italiano, nem por isso menos norte-americano ou espetacular. Ao unir o aparentemente inconciliável (o regime de produção industrial e a força autoral, a política e o entretenimento, o clichê e a invenção), Leone  comprova a assertiva godardiana de que aquilo que nenhuma outra arte consegue amalgamar, o cinema consegue.

Obra-prima calcada na consolidação das fronteiras, “Era uma vez no Oeste” é, sobretudo, um filme sobre a desterritorialização implícita no cinema dito popular. Tal como uma memória coletiva que partilhamos religiosamente, não importa a parte do mundo em que nos sentamos numa sala escura, essa é uma narrativa de todos nós.

*Texto de apresentação para o cineclube Glauber Rocha/Salvador - Bahia

 

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