Vida após a morte
Oblivion
Joseph Kosinski, EUA, 2013

Nós, que frequentamos o cinema (e não apenas os apreciadores de ficção científica), já vimos “Oblivion” inúmeras vezes. No filme de Joseph Kosinski nada aspira à descoberta ou à inauguração de alguma coisa. E isso é coerente com sua ambientação e origem material, pois se trata de uma obra sobre o fim das coisas. Mas o que resta então, quando tudo acaba? Para nós, habitantes das salas de exibição, restam as imagens, senão às de nossas lembranças, àquelas dos filmes que conhecemos. Assim, “Oblivion” não poderia ser melhor e, até certo ponto, reconfortante .

 No entanto, se você não vê o cinema como traço de sobrevivência, acompanhar as aventuras de Jack Harper na Terra devastada de 2077 pode se converter rapidamente em um procedimento meramente arquivista: catalogar com o desapego do agnóstico as variadas referências e citações em desfile na tela, de 2001- uma Odisseia no Espaço  a Solaris ; de Guerra nas Estrelas ao Planeta dos Macacos, passando por La JetéeLawrence da Arábia, Tarde Demais para Esquecer e até Rastros de Ódio.  

É preciso alguma fé nos filmes, na capacidade que eles têm de nos preservar enquanto imagem do que fomos ou desejamos ser, na perspectiva íntima do homem e também no plano geral a que chamamos humanidade. Certamente soa esotérico, para não dizer messiânico, tal pressuposto. Mas parece difícil encontrar outro motivo que justifique essa “costura”, a colagem audiovisual proposta por Kosinski, a não ser nos salvar, nos lembrar que existe esperança, mesmo após o esgotamento de uma arte como o cinema, da sua eventual falta de originalidade e invenção. Afinal está lá, no resgate do personagem de Tom Cruise e da espécie humana por consequência, a imagem refratária da opulência, da grandeza retida pelo cinematógrafo e ainda presente em nosso imaginário através dos filmes.

É provável que (apenas) mais uma história de amor seja pouco ou a promessa da memória cinéfila como tábua de salvação algo por demais abstrato e frágil. Porém, num tempo em que as imagens, tal e qual os recursos hídricos da Terra no filme, estão se esvaindo, “Oblivion” nos oferece esse trajeto de devastação por meio das imagens que ficaram e a partir delas reconstrói o seu mundo, o nosso mundo. Para nós que frequentamos o cinema é a única transcendência possível. É como a vida após a morte.

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