Guerreiro
Como uma peça de Jazz

É do fascínio do esporte a imprevisibilidade. Se não há disputa, se a possibilidade de acontecer qualquer coisa é remota, o encanto é menor. Faz parte da natureza das competições esportivas surpreender. Daí essa emergência, esse flagrante da presença in loco ou transmissão ao vivo ser essencial à paixão, não importa a modalidade. Já os filmes sobre esporte operam na chave contrária. São como um jogo pré-gravado cujo maior fascínio é saber exatamente o que vai acontecer e saborear essa certeza. É da natureza do cinema instaurar a ordem, a segurança diante de um mundo que, na realidade, nos escapa.

Por todos os filmes sobre esporte que já vimos, por conhecermos o itinerário de redenção que essa espécie de subgênero costuma oferecer, é que é possível amar “Guerreiro” (Warrior, EUA, 2011), de Gavin O’Connor. Tal e qual uma peça de jazz, as variações são mínimas e fazem toda a diferença. Afinal o que importa nesses casos é a execução e, no cinema, nada pode ser mais importante do que a mise-en-scène. O’Connor parte do drama familiar, dois irmãos separados pelo alcoolismo do pai e o cadáver da mãe assombrando o que restou dessa trágica relação. O ambiente é um milionário torneio de vale-tudo, ou MMA, nome mais nobre e sofisticado atribuído ao esporte. Do vértice parental refeito cada um deles busca uma chance: de expiar a culpa, manter a própria casa quando se está à beira do despejo ou superar um trauma de Guerra. Nada nos garante que eles vão conseguir esses objetivos, mas como eles lutam por isso! E como O’Connor sabe filmar uma luta.

Há naturalmente várias camadas e subtramas para honrar a tradição narrativa dos filmes sobre esporte, no entanto é no tablado, na jaula a que chamam de octógono, que reside o vigor e a poética de “Guerreiro”, sua transparência física e brutalidade. Da habilidade de criar suspense, de emular algo de imprevisto no conforto do déjà vu, “O’Connor constrói essa notável obra fatalista, através da qual podemos renovar nossa fé no cinema e na sua capacidade de reencenar a vida como se a morte não fosse o único desfecho possível para todos nós.

[ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, SALVADOR, VILA LAURA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Cinema e vídeo