Mostra de SP
38 testemunhas

O espaço fílmico, essa doce obsessão. Exibido na 36ª Mostra Internacional de Cinema de SP, “38 Testemunhas” (38 Témoins, França, 2012), de Lucas Belvaux, procura no interior de cada enquadramento o lugar dos seres, das coisas, das paisagens e até dos sentimentos com uma devoção quase fatalista de pertencimento. É um movimento rigoroso de organização espacial, como há muito não se via no cinema.

Deve-se dizer que o filme se baseia num fato real acontecido em meados dos anos de 1960, transformado em livro e reencenado na cidade normanda de Le Havre por Belvaux. Na ocasião, uma mulher foi violentada e morta às portas de um condomínio e os moradores alegaram inicialmente não ter ouvido ou percebido nada que indicasse o crime.

À premissa hitchcockiana de transferência da culpa, é adicionado um componente sócio-científico : a análise do episódio gerou na psicologia designações “como Efeito de Espectador, Responsabilidade Difusa ou, simplesmente, Síndrome Genovese, em referência à vítima, a norte-americana Kitty Genovese”*. Mas o que importa não é a investigação/tese em torno dessa jurisprudência psicológica – embora o estilo contido, quase entomológico de Belvaux, possa remeter a uma certa cientificização da trama. Hitchcock está presente, tanto quanto Bresson, ambos como poetas das formas, aqueles que atingiram o mais alto potencial expressivo das formas no cinema, o primeiro para gerar suspense, o segundo transcendência. Nos dois casos, o espaço fílmico é irremediavelmente o território de manifestação desse gênero de milagre ontológico, que pode vir ser a mise en scene.

Em um momento crucial do filme, uma das testemunhas, corroída pelo silêncio e pela omissão, exterioriza, durante o sono da esposa, tal culpa. A disposição das personagens no plano remete a uma sessão de terapia, mas com as posições invertidas: o confessor/paciente diante do divã/cama. Mais tarde, a mulher se lembrará da confissão, sentada na mesma cadeira do marido, exatamente na mesma posição, primeiro como sonho e depois como consciência. Essa passagem do in para o consciente, que vemos se materializar no quadro, é toda uma questão de espaço.

Depois, na reconstituição do crime pela polícia, cabe a cada um voltar ao lugar em que estava durante o estupro e morte da vítima. É um processo mecânico, uma engenharia fria é verdade, mas precisa como o movimento dos navios cargueiros que abre o filme, antes mesmo de sabermos que a personagem-chave, que desencadeia essa revisão espacial, está no controle daquelas embarcações, operando ou autorizando cada descarga, guincho ou ação. Para além das suas habilidades profissionais, ele é o metteur en scène , no fórum íntimo e moral, de sua própria tragédia.

*Conforme resgata e contextualiza o crítico Bruno Corsini em texto sobre o filme na Revista Eletrônica Interlúdio http://www.revistainterludio.com.br/?p=4489

 

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