O vencedor
O mistério do cinema

Espera-se de um filme sobre boxe, pelo menos, que seja físico. E de uma história baseada em “fatos verídicos”, que algo do real contamine sua narrativa. Sem frustrar essas expectativas, David O. Russell em “O Vencedor” (The Fighter, EUA, 2010) consegue ir além dessa espécie de fatalismo estético.
Assenta seu filme sobre arquétipos consagrados, como o do ex-ídolo atormentado, da mãe dominadora e do esporte como meio de superar as adversidades e até redenção familiar. É um itinerário conhecido, mas que um bom cineasta não teme percorrer.

Grande parte do cinema clássico norte-americano foi edificado sobre esse gênero de fundações elementares. Até Hitchcock costumava defender a máxima segundo a qual “mais vale partir de um clichê e alcançar o novo, do que tentar ser original e acabar produzindo um outro clichê”.
Russell se alinha a nomes do cinema contemporâneo como Michael Mann e James Gray que ainda acreditam que a beleza de um filme se faz nesses interstícios entre a dramaturgia mais tradicional dos grandes temas e uma vigorosa mise-en-scène.
Às vezes basta um enquadramento, um som, um tipo de entonação para reconfigurar uma cena ou situação já incrustrada no imaginário cinematográfico. Como na sequência em que, após tentar fugir de uma casa de crack, o irmão problemático (o Dick Ecklund, vivido por Christian Bale) canta para a mãe “I started a joke”, sucesso dos Bee Gees, e, de repente, todo o sentimento e “verdade” subjacentes aos estereótipos que moldam aqueles personagens (e também a esse entrecho quase patético) emergem por meio de uma velha canção aos nossos ouvidos. Poderia ser cruel, cínico, um pastiche. O inaudito é que emociona, dá carne e osso às caricaturas de antes.

Também nos acostumamos às coreografias das sequências de luta, ao processo gradativo de desnaturalização em prol do espetáculo em cada embate, mas isso não impede Russell de ainda extrair emoção desse terreno tão explorado. O protagonista de “O Vencedor”, o pugilista Mick Ward (recriado por Mark Wahlberg), quase sempre guarda um golpe fatal para derrubar seus adversários e esperamos por esse desfecho com o mesmo frescor da primeira vez que vimos um nocaute na tela de cinema.

Parece modesta a intenção de reciclar o já visto e conhecido, no entanto após mais de 100 anos de imagens em movimento o que nos falta ver? A lágrima que nunca escorre dos olhos sempre marejados da noiva de Ward (a excepcional Amy Adams), a dor e constrangimento em meio a inexpressividade dramática de Wahlberg, o turbilhão íntimo diante da pergunta: "o que você fez da sua vida?" Respostas, imagens e sensações que, mesmo diante da predestinação do projeto, Russell sabe reconhecer como o mistério do fora da tela, do "não-mostrado". É esse movimento endógeno, talvez o único não rastreável diante da cinefilia, que “O Vencedor” ajuda a continuar. Não é pouca coisa.

 

Tinker, Tailor, Soldier, Spy
O espião que sabia demais

Nada pode prepará-lo para O Espião que Sabia Demais (Tinker, Tailor, Soldier, Spy, ING, 2011), de Tomas Alfredson. Ter lido o livro de John Le Carré no qual o filme se inspira; nem a mais prodigiosa mente cartesiana, capaz de acompanhar a rede de intrigas e reviravoltas da trama. É o que acontece com as obras-primas e o filme de Alfredson nunca é menos que isso.
Não é exatamente uma fita de espionagem, mas uma incursão proustiana por uma época cinzenta e algo sem sentido, cujo anacronismo dos procedimentos só aumenta o impacto da obra. Estamos nas antípodas do glamour bondiano, sem charme, gadgets ou qualquer tipo de pirotecnia. O inimigo está dentro dessa estrutura burocrática e opaca do serviço de agentes secretos a certa altura daquele período que acostumamos a classificar como “guerra fria”. Na aparência é uma bobagem sobre um traidor infiltrado, agente duplo e outras paranóias do gênero. Convém avisar: também é trilha sem recompensa para quem acompanha o filme pelo viés do enigma e da sua solução. Agora se você acredita ser possível mapear, desvendar a emulsão das paixões veladas, então tudo bem, arrisque-se por tal caminho por conta e risco.
George Smiley (Gary Oldman) é o espião melancólico, corroído pela fadiga, encarregado de descobrir o traidor entre os seus. A princípio não passa de um vulto, um fantasma como só o funcionalismo público pode criar. É de traço fraco, desenhado com lápis cinza num fundo branco. Sempre atormentado por lembranças evocadas - tal qual a madeleine de “Em Busca do Tempo Perdido” - de uma festa da agência de espionagem na qual flagra a traição da mulher.

Não é apenas uma ironia detetivesca (o espião traído); está longe da metáfora (o inimigo que entranha-se nos próprios pares). Com efeito, é em torno dos dramas pessoais, intransferíveis, dos seus protagonistas que o filme avança. São histórias de amor, permeadas de recalques e amargura, trazidas à tona por Alfredson.

O cineasta sueco ressalta por meio da fragmentação narrativa o movediço terreno da revisão histórica. Parece ridícula essa busca pelo traidor, todo o ardil para ocultá-lo ou ainda desonesta essa justificativa intimista para o absurdo da (contra)espionagem. Mas quem ainda duvida que tudo isso é irremediável por certo se esqueceu que o cinema é uma arte dos exteriores, que não alcança seu vigor vocacional senão através do que emoldura concretamente – ainda quando isso é apenas um índice para o fora de campo. Não podemos falar de figuração, sim de objetos: o isqueiro com a inscrição dos amantes, mantido pelo antagonista do espião vivido por Oldman; o impecável terno preto que dá volume e reforça o traço do protagonista ao fim da sua jornada de reconstrução.
Enfim, é disso que se trata O Espião que sabia demais: a reconstrução de um rosto, o de Oldman e dos demais espiões. Espera-se desses profissionais a dissimulação, o engano. Alfredson, mais do que qualquer intriga ou artifício narrativo, conta sua história através deles, daquilo que os rostos ao fim de tudo não conseguem ocultar. Até quando não os vemos, no caso os rostos da esposa de Oldman e do seu rival soviético, duas figuras-chave das quais nunca conhecemos as feições; é possível ver o efeito deles no olhar dilacerado dos outros.

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