Não me abandone jamais
Até onde alcança a luz ?

É uma pergunta que, imagina-se, em algum momento do processo de criação, se impõe a todos que fazem filmes: o que iluminar?  Em “Não me Abandone Jamais” (Never Let me Go, ING, 2010), de Mark Romanek, há uma cena exemplar sobre esse tipo de escolha. O casal de protagonistas do filme percorre o melancólico countryside inglês. O destino de ambos havia sido selado momentos antes por meio de uma revelação fatal. A luz fugia do caminho deles como algo indistinto, entre o crepúsculo e o amanhecer. O rapaz pede à moça que conduz o carro para parar. Nesta altura já não havia mais nada à frente deles a não ser a escuridão. Ele caminha em direção às trevas e quando os faróis do carro tornam-se impotentes diante de tal mergulho, ouve-se um grito.
A dor, nesta espantosa seqüência, é evocada pelo que ouvimos, não há imagem capaz de representá-la, a luz não alcança mais aquele homem. Compreendemos, compadecemo-nos do seu sofrimento através daquele som lancinante.Não fossem outros méritos evidentes, bastaria essa espécie de elegia sobre o alcance da luz para fazer de “Não me Abandone Jamais” um filme digno de nota.
Baseado no romance do japonês Kazuo Ishiguro, de cariz sci-fi, acompanha a trajetória de um grupo de jovens sem origens ou parentes, criado em instituições assépticas com propósitos “científicos”.
Em comum com a matriz oriental, Romanek adiciona a atmosfera clássica do romance e do cinema britânicos. Nas duas culturas, ainda que em medidas e latitudes diferentes, prevalecem aqueles sentimentos represados, intensamente internalizados que frustram a maioria das tentativas de os trazerem à tona. Em torno deles e com uma tonalidade quase espectral, o filme se desenvolve a meio passo dos loseyanos “O mensageiro” (The go-between) e “E o mundo os condenou” (They Dammed). Se tudo isso não passa de uma refração do grande cinema, a trajetória de Romanek há de provar ou desmentir. Mas até lá - e para além das promessas autorais que todos nos iludimos às vezes - permanece esse belo momento de luz e trevas que é “Não me Abandone Jamais”.

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