Mostra
Glauber Rocha itinerante

A Fundação Cultural do Estado da Bahia, através da sua Diretoria de Audiovisual,  está itinerando com sete filmes de Glauber Rocha por  16 espaços culturais do interior baiano. Fui convidado a escrever breves apresentações que precedem os programas. Abaixo seguem os textos:

Programa 1

Pátio e Barravento

O começo da carreira cinematográfica de Glauber Rocha é tão provocativo quanto sua trajetória posterior viria a confirmar. O seu primeiro curta, “O Pátio”, apresentado na versão definitiva apenas em 1959, apontava para um formalismo europeu influenciado pelas vanguardas russa e francesa. Como o próprio Glauber afirmaria: “o filme não quer dizer nada, não quer discursar ou narrar”. Bem diferente de “Barravento”, sua estreia em longa-metragem,  lançado em 1961, que transpõe para uma aldeia de pescadores na Bahia  a clássica história de um amor proibido. Glauber explora o potencial subversivo do sentimento, sua capacidade de desafiar as regras impostas e também de transformar a realidade social e religiosa de uma comunidade. Não se trata simplesmente de experimentar a linguagem como em “O Pátio”, mas de utilizá-la e moldá-la como uma ferramenta revolucionária:  o filme com a força de  um “Barravento” no mar,  que rompe com o ciclo da exploração e do misticismo. As bases da obra de Glauber Rocha estavam lançadas  e a partir dali cada frase, imagem e  som teriam sempre e muito a nos dizer.

Programa 2

Deus e o diabo na Terra do Sol

Quando Glauber Rocha realizou “Deus e o Diabo na Terra do Sol” em 1964, acreditava-se no cinema como meio de reformulação do olhar sobre o mundo, conscientização e mudança.  Mais do que uma utopia, era uma questão de acreditar concretamente no poder das imagens. Assim, de nada adiantaria resgatar a poesia e o lirismo da literatura de cordel  ou  recriar as figuras míticas do sertão -  o vaqueiro, o líder religioso, o cangaceiro, o coronel e o jagunço – se não houvesse um novo contexto  para essas manifestações da realidade e da cultura brasileiras. O filme de Glauber tinha o propósito de ir além da descrição, do diagnóstico dos problemas e registrar , diante de nossos olhos,  essa possibilidade real de mudar a paisagem.  Do  sertão virar mar e da terra ser do povo. E é isso que veremos em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Não é milagre, nem promessa. As imagens estão aí para provar. Alguém ainda duvida, mesmo hoje em dia do poder  que elas têm?

 Programa 3

Terra em Transe

Em 1967, dois anos antes do regime militar entrar no seu período de maior repressão com o AI-5 e a luta armada se consolidar como alternativa de liberdade no País; o poeta e protagonista de "Terra em Transe" já empunhava uma metralhadora. Glauber Rocha, como exigia a época, dava carne, osso e sentido às alegorias, uma das raras e ainda possíveis formas de  expressão possíveis naquele momento da vida política no Brasil.
Mas essa maneira indireta, digamos artística, de tratar o que não era permitido falar, discutir ou mostrar, implicava num sério risco: o de não ser entendido e de alienar o espectador do que se passava na tela.
Justamente por isso "Terra em Transe" é um filme tão belo e fascinante quanto o seu desafio de ser claro e luminoso em meio ao caos e às trevas. Acompanhá-lo e, portanto, entendê-lo é um movimento compartilhado, entre o cineasta e o público. É como atravessar um túnel e chegar à luz. E todos já fizemos essa travessia, não é mesmo?

Programa 4

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro

Na história da formação de um povo ou conquista de um território, quase sempre prevalece a versão dos colonizadores. No cinema, sobretudo nos Estados Unidos, coube aos filmes de faroeste dar conta dessas narrativas de fundação. Glauber Rocha amava esse gênero cinematográfico pela evocação de uma mitologia nova, criada a partir de cavaleiros solitários, soldados, índios e bandidos.
Em certo sentido “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de 1969, é a transfiguração dessa mitologia pelos olhos do colonizado, do vencido. É um faroeste filmado às avessas, em que o mocinho pode ser “o matador de cangaceiros” ou o professor  rebelado contra a injustiça. E o mal tem as dimensões de um latifúndio. Para Glauber, tais papéis sociais, o bandido, o herói, não são eternos, nem imóveis. Todos nós podemos ser santos guerreiros. E como ele disse: “basta que entendamos onde está o verdadeiro Dragão”.

Programa 5

O Leão de 7 cabeças

Depois de ser premiado em Cannes como melhor diretor por “O Dragão da Maldade”, obter seu maior sucesso de público e consolidar seu nome em todo o mundo, Glauber Rocha tinha vários caminhos à sua frente: Hollywood, o cinema de autor europeu, menos continuar filmando no Brasil, já mergulhado na fase mais terrível da ditadura militar. Escolheu então a África. E lá realizou, em 1970, “O Leão de Sete Cabeças”. Foi em busca das origens do Brasil e encontrou na ex-colônia francesa transformada em República Popular do Congo, muitas semelhanças com a sua terra natal, a Bahia. Outra vez recorreu às alegorias e à mitologia, talvez por fidelidade àqueles tempos caóticos e mal iluminados. Mas acreditava, acima de tudo, que para além da revolução retratada no filme, da eterna luta contra o imperialismo; nós nos reconheceríamos ali, como num espelho mágico, capaz de projetar o que somos e o que poderíamos ser. Em seguida, Glauber iria para Cuba filmar a História do Brasil.
Estava completado o ciclo pedagógico para o nosso olhar. Mas será que aprendemos a ver?

Programa 6

A Idade da Terra

Glauber Rocha imaginou e realizou “A Idade da Terra” , em 1980, como um filme sem os tradicionais começo, meio e fim. Essa estrutura de fluxo contínuo provavelmente tinha a ver com a sua volta ao Brasil, após uma década de exílio. Ele não via sua trajetória pessoal, nem a do cinema ou do País dividida em fases estanques, mas como um todo móvel, intercambiável e repleto de promessas, todas realizáveis. Não havia espaço para o lamento, o ressentimento, apenas viver o futuro, as novas possibilidades da reabertura do Brasil para um regime democrático. Era, acima de tudo, um filme livre, em forma e espírito, para abrir caminho para a liberdade. Segundo o próprio Glauber, feito para ser visto pelo “ espectador como se estivesse numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução.” Foi seu último filme, mas nunca acabou...E  continua a cada projeção, refazendo sua utopia estética e moral.

[ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, SALVADOR, VILA LAURA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Cinema e vídeo