Woody Allen
Meia-noite em Paris

O que mais impressiona, logo de cara, em “Meia-Noite em Paris” (Midnight in Paris, EUA/FRA, 2011) é a maneira quase mediúnica que Owen Wilson interpreta Woody Allen. Da voz aos trejeitos, tudo remete ao cineasta e ator norte-americano, diretor do filme. E isso é particularmente desconcertante, pois a obra extrai seu encanto de uma espécie de umbral parisiense que mantém vivos artistas dos anos 1920, de Hemingway a Scott Fitzgerald, passando por Gertrude Stein, Cole Porter e Salvador Dalí.
Assim, as incursões noturnas do roteirista hollywoodiano e aspirante a escritor (Wilson) pelo passado glorioso da Paris das primeiras décadas do século passado, implicam numa certa autonecrofilia alleniana. Afinal, a representação de Allen por Wilson está situada em pé de igualdade às  demais representações do filme. O autor/artista nova-iorquino se alinha aos grandes nomes que exalta, ele próprio a expressão da nostalgia celebrativa de uma época gloriosa. Resta a questão: como autor, Woody Allen também está morto? Com certeza que não, mas como artista, criador e criativo, é inegável a sensação de exumação que “Meia-Noite em Paris” confirma de maneira irrevogável.
Em outras palavras: para afirmar o autor, suas obsessões, estilo e habitual condescendência consigo mesmo, a ponto de encontrar um ator mais jovem e charmoso para recriá-lo; Allen parece mais estagnado do que tautológico. Sua filmografia, que já aspirou algo da gravidade bergmaniana com ousadia e originalidade (“Setembro”, “A Outra” e “Crimes e Pecados”),  agora se contenta apenas com o verniz das locações européias.
Por outro lado, seus últimos filmes sugerem uma curiosa e agradável arqueologia da comédia romântica dos anos 1950, o gênero que consagrou a dupla Rock Hudson e Doris Day, as fitas de Debbie Reynolds, os inesquecíveis encontros de Cary Grant e Deborah Kerr e tantos outros casais de traço agridoce.

“Meia- Noite em Paris”, ainda neste aspecto, é exemplar. Por mais repetitivos que possam soar os diálogos e situações, há uma sincera graciosidade na maneira como incorpora esses clichês e escancara a trama como um déjà vu funcional. Há beleza na maneira como explora a beleza das paisagens de Paris.
Allen não disfarça sua adesão ao explotation europeu e o faz com leveza, despretensão, pena que lhe falta a (auto)ironia.
A ideia que perpassa o filme, o inconformismo com a contemporaneidade, que leva Wilson a materializar sua “era de ouro” entre a noite densa e a alvorada; e faz a personagem de Marion Cotillard  recuar dos anos 20 à “Belle Époque”, também pode servir como atenuante deste “Meia-Noite em Paris” face ao rigor excessivo que , via de regra, contamina os saudosistas na análise do que pertence ao seu tempo.

Se o tempo é, de fato, uma instituição borgiana que abriga numa mesma esfera passado, presente e futuro, há de ter mérito essa anacrônica comédia romântica que nos faz sonhar com um cineasta e com filmes que já foram grandes e que talvez voltem a ser, passados alguns anos desde o nosso olhar inaugural. Ou simplesmente porque as coisas pioram de geração em geração.

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