Livro
Só garotos

“Não existe bem puro, nem mal puro. Só existe a pureza”.
Patti Smith

É de um amor, como nenhum outro, que se trata “Só Garotos” (Cia das Letras, R$ 39,00), livro de memórias da poeta e perfomer Patti Smith. Embora as matizes literárias do idealismo romântico e religioso façam parte do itinerário afetivo de Smith, sua relação com o artista plástico e fotógrafo  Robert Mapplethorpe ultrapassa todas elas para se afirmar em sua originalidade quase sobrenatural.
Talvez na vida dos santos encontremos algum paralelo a esse amor, de feitio tão terreno quanto celeste e que floresceu na Nova Iorque do final dos anos de 1960, quando ambos buscavam, cada um ao seu modo, honrar o compromisso com a arte que haviam contraído consigo mesmos.
É, ainda, um caleidoscópio imaginativo e mágico que desafia, pelo acúmulo de coincidências e passagens simbólicas, os limites da autobiografia. Para quem nunca leu um relato do gênero (memorialístico) não há iniciação mais instigante: pensar que a vida é capaz de oferecer tudo isso.
Mas “Só Garotos” deixa claro a cada frase e na profusão de histórias que desvela de maneira invariavelmente comovente – preservando também o humor, a lucidez e sagacidade – a prosa austera e a capacidade rara de observação reflexiva de Smith.
Generosa, ela compartilha intimamente com o leitor o seu próprio engenho artístico. O que se de um lado nos toca pela cumplicidade, por outro – sem qualquer traço de superioridade – evidencia o privilégio da sua sensibilidade, que filtra e recria, pela sua experiência pessoal e coletiva, toda uma cena nova-iorquina, um período e uma geração, que marcariam definitivamente o século passado.
Dos seus encontros com Sam Shepard, Salvador Dalí, Allen Ginsberg e a ampla fauna de artistas e moradores do lendário Chelsea Hotel, emergem trechos não apenas elucidativos do espírito daquela época de efervescência crepuscular, como permeados de uma doce melancolia.
Há certa altura, diante das mudanças e perdas, grande parte decorrente do estilo de vida (regado a drogas e outros excessos e paranóias) dos seus contemporâneos, Smith se considera uma “sobrevivente”, sem que qualquer tipo de julgamento ou sensação de vantagem transpareça nessa constatação.
No entanto, mesmo em meio ao trágico, às vezes se impõe algo de curioso. Como no temor de uma possível maldição em torno da letra “j”, que tira o sono do cantor Johnny Rivers, após acompanhar as mortes, num breve intervalo de tempo, de  Brian Jones, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison. Rivers acreditava que, pelo seu prenome em comum, poderia ser o próximo da lista.
A atenção para os detalhes constituintes de um momento histórico, o fato de o ter  vivido e o mais importante: ter retido, com frescor e carinho, esses acontecimentos, amalgamando-os profundamente em si, confere a Smith ao longo das mais de 250 páginas de “Só Garotos” uma fidelidade irrestrita ao impulso artístico.
E para além da bela homenagem póstuma que é – fruto da promessa que fizera a Robert – ainda pode ser lido como uma sincera declaração de princípios: “O artista busca entrar contato com a sua noção intuitiva dos deuses, mas, para criar seu trabalho, não pode permanecer nesse domínio sedutor e incorpóreo. Ele deve voltar ao mundo material para fazer sua obra. É responsabilidade do artista equilibrar a comunhão mística com o trabalho criativo”.

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