Bravura indômita
Longa viagem de volta

É como um céu estrelado. Aquilo que provavelmente já se findou, mas cuja luz ainda nos chega... De outras eras. O western é, por procedência, a gênese da narrativa cinematográfica. E para tal havia essa fundação original: a amplitude da região, o espaço das imagens, berço das histórias que, ao serem contadas, convertiam-se em mitologia.
“Bravura Indômita” (True Grit, EUA, 2010), dos irmãos Joel e Ethan Coen, não é somente um extraordinário western tardio, como, por exemplo, “Os Imperdoáveis”, de Clint Eastwood. É um lampejo daquele brilho inaugural, fundador do cinema, vestígios de “um tempo que se afasta de nós”. Quando as paisagens pulsavam, transfiguram-se, do Oeste à Lua, após o contato com a câmera.
Também trazia um verniz outonal, o filme homônimo dirigido por Henry Hathaway em 1969, uma década, aliás, pródiga em disseminar a desconstrução narrativa, como forma de expressão “moderna”. Não por acaso, o protagonista da obra de Hathaway era ninguém menos que John Wayne, ainda imponente, de presença volumosa mesmo no ato final de sua carreira. Era como um ícone do passado, num momento de irremediável fratura no cinema.
De certo modo, uma situação análoga à do atual “Bravura Indômita” que parece tomar como referência principal a obra literária de Charles Portis, em detrimento da versão cinematográfica anterior. Assim, não se trata de uma refilmagem pontual de um clássico do western. É, antes de qualquer coisa, uma refilmagem amplificada, recriação do gênero em si, uma longa viagem de volta.
Pelo distanciamento temporal, esse processo de arqueologia cinematográfica é mais radical que o pretendido por Hathaway. E mais belo. Suas matrizes são históricas: John Ford e Howard Hawks, acima de tudo.
A espantosa sequência em que a adolescente em busca do assassino do pai atravessa um rio com o seu cavalo, remonta à memorável perseguição ao rinoceronte que abre “Hatari”, de Hawks. Nos dois casos, é possível presenciar uma autêntica conjuração da natureza. Sentimos a respiração dos seres, a violência dos elementos, a paisagem levada a tal paroxismo que, ao fim da projeção, não parece improvável restar em nossas roupas e sobre a pele traços de poeira da savana de “Hatari” e algo de úmido do mergulho no rio deste “Bravura Indômita”.
Travessias sensoriais e afetivas em torno das quais o cinema construiu sua memória coletiva.

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