Socialismo

O (a)mar Godard

 

Há, pelo menos, dois filmes essenciais na obra de Jean-Luc Godard, que terminam no mar. Em “Pierrot, Le Fou” (1965), temos aquele plano epifânico do horizonte, representação do eterno, provavelmente a imagem mais próxima do que poderíamos imaginar como “o paraíso” na filmografia godardiana.

Também é sobre o mar que se debruça a câmera  no final de “O Desprezo” (1963), quando o próprio Fritz Lang encerra mais um plano (seria o último?) da (sua) Odisséia, de Homero. Entre a vida interrompida (“Pierrot”) e um filme eventualmente não finalizado (o de Lang em “O Desprezo”), resta essa imagem-âncora, com suas eventuais promessas de além-mar.

A mesma que Godard retoma, desta vez  para iniciar a jornada de “Filme Socialismo” (2010). Agora em alto mar, acompanhamos um cruzeiro, desses que se tornaram populares hoje em dia e cujo deslocamento – a viagem em si – tornou-se irrelevante. O sentido da aventura, da descoberta se esvaziou completamente. O que prevalece é esse mundo recriado dentro do transatlântico, artificial e kitsch que Godard contrapõe à beleza inaugural do oceano.

Quase 50 anos depois, reencontramos uma (nova) imagem do mar, preservada em seu volume e densidade, como num registro dos irmãos Lumiére. Mas, como convém à época em que vivemos, seu verniz é terreno, desencantado. Godard filma esse mar aberto, logo de início, como uma imersão. Já não vislumbramos a ilusão do seu encontro com o céu, nem o fora de campo das utopias, como outrora. Têm se a impressão, nestas sequências, que a tela pode, a qualquer momento, nos submergir.

De fato, o itinerário godardiano, nas últimas décadas, é reconhecidamente áspero. Tem a equivalência de um naufrágio. A saturação das cores, a “videotização” da imagem e sua dessacralização, a pornografia, o horror são imposições irremediáveis, das quais Godard nunca se esquivou.

Sua arte é mundana, no sentido de incorporar e permitir que esse mundo se manifeste no cinema, que antes desejava ser, acima de tudo, “um mundo que se ajusta aos nossos desejos”. No entanto, mesmo  planos de uma crueldade ímpar como o das prostitutas no escritório de um industrial em “Sauve Qui Peut (la Vie)”, ou mais precisamente na sequência de tortura de “Le Petit soldat”, jamais deixam prevalecer o gosto amargo da capitulação, nem o distanciamento inescrupuloso de um Michael Haneke, por exemplo. Existe sempre um inconformismo subjacente, radical.

Provavelmente é dessa natureza o (a)mar de Godard. Intransigente, oceânico, ameaçador e belo. E se estamos à deriva, ainda temos os seus filmes para nos localizar.

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