Além da vida
Neste mundo e no outro

É sempre do mundo tangível que emerge a poética de Clint Eastwood. Em “Além da Vida” (Hereafter, EUA, 2010) – seu mais recente trabalho, aparentemente um filme sobre experiências de pós ou quase-morte – não é diferente. E se isso é possível, devemos atribuir, sobretudo, a Eastwood, a quem, nesta altura da carreira, nenhum tema, abordagem ou situação lhe parece proibitiva, inadequada.
Aqui, por exemplo, ele dá conta de um fenômeno natural das proporções de um Tsunami com a mesma sobriedade com que filma os dramas mais íntimos, a solidão, a perda, a proximidade da morte.  
Parece lhe interessar, sobretudo, a experiência humana. Não há tom de grandiloqüência sequer na espantosa cena da onda gigante que varre o vilarejo na Tailândia, em que a jornalista francesa (Cecille de France) passava as férias.
Dessa tragédia emerge as primeiras imagens do que seria a vida após a morte, a ponto de conduzir a personagem a escrever um livro como forma de descrever e explicar tais visões.
Grife-se que aqui – como em todo o filme – é o mundo visível que conforma e motiva o desenrolar das ações da trama. Não há interferência, nem qualquer protagonismo do mundo espiritual.
Mesmo George Lonegan (Matt Damon), o médium apaixonado por Charles Dickens que tenta se afastar da “vidência”, explica a origem desse “dom” como algo clínico, físico, decorrente de uma enfermidade de infância.
Por outro lado, o tratamento respeitoso do tema, nada tem de frio, de distante. É o afeto o ponto de convergência das trajetórias paralelas da jornalista, do médium e do gêmeo em luto após perder o irmão.
Diante de cada desafio – o folhetim religioso, a impessoalidade do cinema-castástrofe, a exploração comercial da fé e da dor alheia, a digressão narrativa – Eastwood encontra uma imagem, um som, um objeto que recoloca nosso olhar em direção ao essencial, ao movimento subjacente à compreensão das coisas e das pessoas, da vida e do além da vida.
E se ainda resta alguma duvida sobre o seu amplo domínio dos meios cinematográficos, há a seqüência divertida e sensual da aula de culinária. Usado como alternativa de interação social; o curso incentiva o trabalho em pares e promove exercícios sensoriais. Ao som da ária de Puccini, “Nessun dorma”; Damon e sua parceira de mesa provam, de olhos vendados,  os alimentos e discorrem sobre intimidades. Até a essa esquete, que bem poderia se originar de uma típica sitcom norte-americana, Eastwood confere grandeza.
“Além da Vida” é, em síntese, a prova de que Clint tudo pode transfigurar...Neste mundo e no outro.

 

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