Dois filmes
A vida provisória*

É provisória também. A vida que vivemos através dos filmes. Talvez por isso, o cinema em particular, no âmbito das artes, seja o espaço do registro da fragilidade humana e da busca pela sua permanência. Dois recentes e notáveis filmes  ilustram bem, mais do que esse caratér ontológico intrínseco à natureza cinematográfica, a capacidade de realçar o tanto de fugaz e permanente que condiciona nossa experiência artística e existencial.
"O nome dela é Sabine" (Elle s'appelle Sabine, França, 2007), é um documentário realizado pela atriz francesa Sandrine Bonnaire sobre a via crucis familiar e pessoal imputada pelo diagnóstico tardio do autismo de sua irmã. Como último recurso, após passar de casa em casa, de clínica em clínica, Sabine é internada em um hospital psiquiátrico. Após cinco anos na instituição, sua vida havia praticamente se exuarido devido à forte medicação e ao isolamento.
Bonnaire tem os registros de antes da trágica estadia e filma o atual cotidiano da irmã. Diante da degradação evidente e ao que parece irreversível de Sabine, ela conserva as provas, essas imagens, da fragilidade, mental e física, a que todos nós estamos sujeitos.
Há uma cena, em especial, que conecta o belo documentário de Bonnaire à obra ficcional de Eugène Green, o extraordinário "A Religiosa Portuguesa" (2009). É quando Sabine, na lanchonete, se surpreende com sua própria imagem refletida, a ponto de tocar no espelho como que para ter certeza se o que via era um duplo ou apenas um mero reflexo.
No filme de Green, a protagonista vivida por Leonor Baldaque, uma atriz em filmagem na cidade de Lisboa, ao encontrar-se com seu par masculino na produção, logo após o trabalho, contempla, de longe, a varanda do hotel em que está hospedada. Em seguida, os dois estarão naquele lugar que  avistaram há pouco como um simples ponto luminoso. O ator (Adrien Michaux) então comenta: "Me sinto como se estivesse do outro lado do espelho". A frontalidade dos enquadramentos de Green nas seqüências de diálogo reforça esse olhar que nos é devolvido a cada enunciado, de modo que nós espectadores também nos sentimos diante de um espelho.
Essa atriz, Julie/Baldaque, é uma mulher mundana, no papel de uma religiosa. Seu reflexo e duplo é uma freira que se entricheira numa pequena capela como uma resistente "ao cerco de Deus". O encontro das duas, quando a segunda parece "deixar de existir", é o espelho algo epifânico de uma mesma mulher, a que vive e a que representa - e que só o cinema, como a fé, pode legitimar, tornar verdadeira.
É a imagem que Sandrine Bonnaire quer preservar de sua irmã, frágil como a condição humana, tanto pelo suporte do registro(a fita vhs, o dvd, a película), quanto pelo organismo, devastado pelos antiepilépticos e afins. É a esperança de Julie em encontrar um amor em meio a tantas paixões fugazes.
Estamos no domínio da permanência, que encontramos nessas duas obras admiráveis, para em seguida perder no trânsito cotidiano, em que tudo passa sobre a terra.

* "A vida provisória" é ainda o belo título do único e assombroso filme assinado pelo crítico de cinema mineiro, Maurício Gomes Leite.

 

[ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, SALVADOR, VILA LAURA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Cinema e vídeo