Waking the Dead
Do mundo dos mortos

As séries de televisão inglesas não costumam acabar bem. Pelo menos as policiais são prodigiosas em levar nossos temores às última conseqüências.  “Waking the Dead”, criada por Barbara Machin no começo dos anos 2000, é fiel a essa tradição.
Produzido pela BBC e atualmente exibido, de segunda a sexta-feira  às 11h, no canal por assinatura SPACE (Sky, 58), o seriado, ao longo de suas oito temporadas,  registra o cotidiano de investigações da unidade de casos “encerrados” da polícia britânica. Grife-se encerrados, mas não concluídos.
Reabrir esses casos é a tarefa da equipe chefiada pelo detetive-superintendente Peter Boyd (Trevor Eve). Invariavelmente, o aparecimento de um cadáver,  objeto ou amostra de DNA desencadeia o processo de revisão, o que situa Boyd, acima de tudo ele, num permanente umbral .
No tráfego entre o mundo dos vivos e o dos mortos, ele conta com o apoio da Dra. Grace Foley (Sue Johnston), especialista em traçar perfis psicológicos; de uma legista e dois investigadores. Mas sua viagem é solitária, quer dizer: sua natureza difere dos demais, de tão intrínseca que é à essência do seu próprio trabalho. Chega a ser assustador.
Acompanhar sua trajetória é testemunhar o processo de zumbificação  de um homem,  incapaz de manter relacionamentos e assombrado pelas perdas do passado. Um morto-vivo tragicamente dotado de consciência e sentimentos.
No decorrer da série, ele se depara, impotente, com a morte de companheiros, de criminosos e vítimas, além do próprio filho,  desaparecido há anos e que ressurge apenas para também lhe imputar um desfecho : o corpo, na maca fria e metálica de um necrotério, quando ele é chamado para o reconhecimento.
Ao refazer o passado, ordenando-lhe e esclarecendo, Boyd e sua equipe apaziguam, em parte, um sofrimento, uma incerteza.  Concedem a lápide que faltava para um cadáver, a justiça reivindicada, a sentença cobrada.  No entanto, os métodos científicos que dispõem ou a perspicácia investigativa utilizada estão longe de encerrar qualquer coisa, principalmente para ele.
Boyd está condenado a lidar sempre com o irreparável. Como a protagonista  de “A Morte Cansada”, de Fritz Lang, que,  acompanhada da Morte,  entra numa sala repleta de velas, cada uma representando a vida humana; o detetive de Trevor Eve habita um espaço progressivamente mais escuro – o escritório da unidade “cold case” perde luminosidade no desenrolar das temporadas até ser tragado por completo pela penumbra dos caso encerrados .
Curiosamente, no Brasil, Waking the Dead  foi traduzido por  “Despertando os demônios” e não, literalmente, os mortos,  como sugeria o termo em inglês. A sutileza na tradução é precisa no diagnóstico. Atrás de cada morto, há um demônio interior que aflora nesse trabalho infernal de enfrentar o passado.

 

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