A Ilha do Medo
Amor de perdição

“A medida do amor é amar sem medida”
Santo Agostinho

Godard tem (mais uma) bela frase sobre “o cinema de citações”: “Deus reconhece os seus”. Para cineastas como ele - e Martin Scorsese, por exemplo  -  há uma dimensão espiritual nos filmes.  Os grandes cineastas são como apóstolos.  Assim, é preciso voltar às imagens de John Ford, Jacques Tourneur, Hitchcock, Bresson, Raoul Walsh, entre outros, como quem busca o verbo, a palavra nessa espécie de novo testamento.
Como todo cristão, do protestante ao católico, para ficar nos casos de Godard e Scorsese, há uma crença fundamental: na ressurreição. Não é exatamente o que eles perseguem, mas está presente na maneira como se apropriam e transfiguram as lições dos mestres.
Diferente de Quentin Tarantino, cujo trabalho com as referências é, de certa forma, mais pagão, pois para ele, pelo menos é o que aparenta, não há religião fora do cinema.
Em comum a todos eles, esse amor sem medida. O amor capaz de fazer ressurgir o que se pensava morto.
E o que é o cinema de Godard das últimas décadas, senão esse desejo historiográfico e espiritualista de resgatar o cinema?
Em “A Ilha do Medo” (Shutter Island, EUA, 2010), Scorsese, como nunca antes em sua carreira (exceção feita, talvez, aos seus documentários sobre os cinemas norte-americano e italiano), alinha-se a Godard em tal empreitada. E o faz por meio da representação, a mais bela de toda a sua obra. O que se quer dizer com isso? “A Ilha do Medo” não representa um noir tardio, uma homenagem aos filmes de suspense dos anos 40 e 50, ou, ao cinema de terror peninsular das década de 60 e 70. É uma representação de tudo isso.
Brilhante em sua encenação, moto perpétuo da ficção a que se propõe criar. O cinema mais puro, a metáfora. Aliás, ninguém, atualmente, faz metáforas como Scorsese. Como esquecer a imagem das torres gêmeas, naquela extraordinária elipse temporal, rasgando o céu como duas lápides em “Gangues de Nova York”, índice  da violência constituinte da sociedade norte-americana e seus efeitos? Ou do rato sobre a varanda, com o Capitólio ao fundo, no desfecho de “Os Infiltrados”, aquele labiríntico exercício das aparências?
Agora, em “A Ilha do Medo”,  é a vez de um farol sem luz nos empurrar em direção ao abismo. É disso que se trata o filme, acima de tudo. De um amor de perdição, irreparável.  Toda a trama, das mais intricadas, com as reviravoltas e revelações que o cinema de gênero exige, não é capaz de apaziguar ou fechar essa ferida que se abre.
Quando o filme termina e os créditos sobem , algo se internaliza em nós.  Aquela ilha - onde a vida se manifesta através de tempestades, penhascos e lembranças dolorosas; e a morte tem a aparência de um idílio campestre - não é algo que possamos descartar. Ninguém sai daquela ilha. Resta esperar pela ressurreição.

 

Shutter Island
This bitter earth - On the nature of daylight

Canção dos créditos finais de “Shutter Island”, obra-prima de Martin Scorsese. Uma pista para aqueles que acreditam que o filme seja, pura e simplesmente, um “suspense  que não assusta”...

 

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