Invictus

Fé nas evidências

O sofrimento é quase uma elipse em “Invictus” (EUA, 2009), de Clint Eastwood. Ele está lá, na solidão do presidente Mandela; ou na melancolia que evoca a música do cineasta, composta  em parceria com o seu filho Kyle. Mas é algo secundário. Podemos dizer que o filme se situa após a dor, pessoal e coletiva.
Naturalmente são contundentes, mas econômicas as referências  ao apartheid, sobretudo, o admirável plano de abertura  da comitiva presidencial, atravessando a cidade entre duas cercas, a de um campo de rúgbi, praticado por brancos; e a de um terrão de futebol, predominante negro.
Notável ainda observar o que essa escolha representa na obra recente de Eastwood. Desde “Os Imperdoáveis”, mais frontalmente, seus filmes parecem caminhar invariavelmente para a escuridão. Mais do que crepusculares, são fatalistas, desencantados. “Gran Torino”, por exemplo, encena o ritual  fúnebre da persona Eastwood, cunhada entre Don Siegel e Sergio Leone.
“Invictus” ainda não é um filme solar. Está perto disso. Acompanha a obstinação de um homem e seu feito. Como se trata de uma conquista real, tão improvável quanto uma ficção para quem acompanha o rúgby – algo como a África do Sul ganhar a próxima Copa do Mundo de Futebol – não há dialética ou paradoxo.
Tudo é claro, direto, plano.  Daí o idealismo do filme. São personagens modelos, porque modelaram uma realidade com tal grandiosidade e vigor, que é impossível não se render as evidências. E é sempre evidente o cinema de Clint.
É provável que derive dessa fé de Eastwood nas evidências, a dignidade com a qual transita por terrenos perigosos como o melodrama (“A Troca”), o revisionismo histórico (“ A Conquista da Honra”), “o filme esportivo” ( “Menina de Ouro” e “Invictus”) ou a cinebiografia (“Coração de Caçador” e “Bird”).
No fundo, ultrapassa todos estes temas e gêneros, para afirmar uma obra que constata, antes de comentar.  Às vezes, as coisas acabam bem. É uma constatação que Eastwood faz por merecer.

 

 

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