A câmera  e as letras

É da demiurgia resnaisiana, sobretudo, que vamos tratar. Para criar seu mundo, Alain Resnais parece crer tanto na câmera, quanto nas letras. Não por acaso seu cinema, em alguns momentos, esteve atrelado a movimentos literários como o Noveau Roman.  E, ao teatro mais recentemente.
Nasce daí um paradoxo criativo cada vez mais complexo. “Ervas Daninhas” (Les Herbes Folles, FRA, 2009), seu último filme, era para ser, na aparência, um filme de “câmera”, no seu sentido mais amplo, material e íntimo. No entanto, há um complô, inscrições, citações e invasões (o termo parece mais adequado que “digressões”) de toda sorte no curso de sua narrativa.
Ao purismo da mise-en-scène, Resnais agrega, como num risco calculado, algo de desconstrutivista e irônico. É um equilíbrio delicado, beira a esquizofrenia. Pois de um filme de tanto rigor, espera-se um controle absoluto do que está sendo encenado. No entanto, há momentos em “Ervas Daninhas” em que tudo pode acontecer – e, infelizmente, isso não depende da câmera, da mise-en-scène – mas da (anti) progressão dramática da história.
Para ilustrar melhor: o filme pode de um diálogo ao outro, fazer a travessia dos gêneros – do “amor louco” à fita de serial killer, do kistch urbano  ao mistério da natureza (as falésias, acima de tudo), de “O pequeno príncipe” às “Pontes de Toko-Ri”.
Resnais, o “demiurgo”, cria nesse ambiente um mundo em que tudo é permitido, cuja lógica própria é sempre um enigma para quem não o habita. E, sem dúvida, em nenhum momento somos convidados a habitar esse mundo resnaisiano, encravado de “ervas daninhas”. Talvez porque o seu criador queira nos poupar do desespero  e da gravidade, com um sorriso de desconcerto, antes de nos oferecer um desfecho digno de Lewis Carroll.
Se Resnais foi  às últimas conseqüências aos 87 anos. Nós não. Por sorte, o filme está aí para envelhecer conosco.

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