33ª Mostra
Baldi, o realizador

A primeira sequência de “Fouco!”  (1968) se encerra com a imagem de Nossa Senhora sendo metralhada durante procissão em um vilarejo italiano. Não há qualquer tipo de explicação ou sentido conferido a esta ação ou as demais, ao longo do filme. Em nenhum momento, ficará claro para o espectador sobre a motivação daquele homem, que, de um sobrado, faz mira na imagem da santa e, depois, mantém em cárcere a própria família. Há a mulher, uma criança e um cadáver no corredor, entre a cozinha e o quarto.
Nada sabemos sobre o antes, nem o depois, quem eram ou o destino dos personagens.  A polícia que faz o cerco, revela seu nome, Mario; dá a entender que era uma pessoa pacata e respeitada na comunidade. Talvez atravessando um problema financeiro, o desemprego, nem eles, da polícia, sabem. Tateiam.  É tudo que teremos. Não há cartela explicativa. Seria uma história real? Um documentário fake?
O espantoso vigor de “Fuoco!” provém, grande parte, dessa tensão, do assombro que se origina dessa organicidade,  que torna anacrônico qualquer efeito narrativo ou  leitura estilística.   A obra mais do que negar respostas,  é uma experiência presencial, quase física. Nos sentimos exaustos após a projeção.
Gian Vittorio Baldi, o realizador, no entanto, deve ter mudado de opinião quatro décadas depois. Em São Paulo, como homenageado da 33ª Mostra de SP, pôs-se a detalhar as práticas de filmagem de  “Fuoco!” e, sobretudo, revelar as motivações dos personagens, durante debate em uma faculdade. Felizmente há o filme impresso e preservado.
É não menos espantosa a divergência entre o homem, pelo menos o que se apresentou na capital paulista, e o realizador. O que ele filmou e produziu, com o que diz agora. No final dos anos de 1950 pregava um certo franciscanismo na linguagem cinematográfica, traçando paralelo, hoje, com a carta de intenções do Dogma 95.
Nas décadas seguintes, produziu Robert Bresson, “Quatro Noites de um Sonhador”; Pasolini, “Notas para uma Oréstia Africana”; entre outros. Mas nega qualquer afinidade de sua obra com a filmografia desses cineastas.
Como o Bergman dos últimos anos, é um perigo para sua própria trajetória no cinema, face a dissociação entre o que prega e o que já fez. O que nos leva a uma questão: a autonomia da obra de arte em relação ao seu criador.
Difícil desconsiderar as influências bressonianas em “Fuoco!” - a imantação do mal – e no extraordinário “O último dia de aula antes das férias de Natal” (L’ultimo giorno di Scola prima delle vacanze di Natale, 1975), em que há uma citação frontal à “Mouchette”, de Bresson. Também à Pasolini. Ao registrar um episódio dos estertores da Segunda Guerra, quando fascistas às vésperas da chegada das tropas americanas, seqüestram um ônibus escolar na região de Emília-Romagna, norte da Itália; Baldi tece um diálogo com “Saló”, não por acaso realizado no mesmo ano e seguinte à sua experiência como produtor de “Notas para uma Oréstia Africana”.
Revelação tardia, e razão de ser da última Mostra, a obra de Gian Vittorio Baldi continua a se impor para além e apesar de quem a criou. Ainda bem.

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