Alfred Machin

À serviço do cinema

 

Alfred Machin era um funcionário da Pathé. De origem belga, era uma espécie de cinegrafista da empresa francesa naquela região da Europa. Nos primeiros anos do cinema, ainda não havia autores e exigências artísticas. Portanto, o terreno ainda era fértil para a expressão cinematográfica.

Não se pode dizer que Machin se tornou um autor do cinema – a falta de uma perspectiva completa de sua obra e seu esquecimento perante a historiografia oficial, provam, antes, o contrário. Também contribui para afastá-lo do tipo de reputação que se inveja, a sua dedicação a gêneros menos nobres, como o documentário etnográfico e as fitas de mistério e suspense.  E se o seu nome reivindica algum espaço, por menor que seja, no panteão dos grandes cineastas, isso se deve, estritamente, a um drama pacifista, “Maldita seja a Guerra!” (1914), considerado sua obra-prima.

Na recente III Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, realizada pela Cinemateca Brasileira, Machin se alinhou à casta dos “poetas esquecidos”  que o evento se propôs a resgatar, ao lado do chinês Sun Yu (Amanhecer/1933), da estrela e militante ecológica canadense Nell Shipman (De Volta à Terra de Deus/1919), do francês Jean Durand (A Ilha do Amor/1928) e até do pioneiro português Silvino Santos, responsável pelas primeiras imagens da Amazônia.

Naturalmente, todas as atenções se voltaram para “Maldita seja a Guerra!”, como de regra aos outros filmes “com mensagens” ou dotados de “certo exotismo cultural”. Nem mesmo os extraordinários “Maldone (1928)” e “O Homem do Mar (1920)”, respectivamente de Jean Grémillon e Marcel L’Herbier, dois nomes consagrados do cinema francês e mundial, receberam maiores distinções. Quase o mesmo destino teve “O Solar do Medo” (Le Manoir de la Peur, 1927), co-realizado por Machin e Henry Wulschleger.

Mas essa fita assombrosa, em todos os sentidos, talvez seja a melhor síntese possível da razão de ser de eventos como a Jornada. Mais do que uma revelação ou do gosto da descoberta, essa obra-prima notável, realizada sem maiores pretensões e que se vale da mitologia e da tradição francesa no gênero fantástico, comprova a vitalidade do cinema de gênero em qualquer época, sua vocação popular e sua capacidade de ultrapassar grandes projetos artístico-ideológicos com uma modernidade e clarividência impressionantes.

Em “O Solar do Medo”, uma pequena vila francesa entra num clima de crescente pavor depois da chegada de uma misteriosa figura, diretamente inspirada na personagem fatal de “A Morte Cansada”, de Fritz Lang, que se instala num solar abandonado.  Acompanham o forasteiro, seu criado Cagno e a chimpanzé Helô. Dotado de uma inteligência fora do comum, logo percebida pelo inescrupuloso Cagno, o símio é treinado para invadir as casas da vila à noite e roubar objetos de valor. Sem deixar traço, apenas uma inusitada e apavorante sombra, amplificada pela fotografia expressionista de Mario Badouaille, os pequenos furtos logo adquirem uma conotação sobrenatural. Para guiar o animal, Cagno inscreve um pequeno símbolo na porta da casa a ser “visitada” por  Helô – a marca remonta o sinal siciliano equivalente a uma condenação à morte.

Antes de se descobrir o real propósito do sinistro visitante, a ganância de Cagno e a fidelidade cega da chimpanzé, conduzirão a todos a um dos mais eletrizantes desfechos - com direito a sofisticada montagem paralela - da história do cinema.

Para além das influências - notadamente de “O Gabinete do Dr. Caligari”, pela óbvia semelhança do macaco com o autômato César - a originalidade e força poética de “O Solar do Medo” está na sua “impessoalidade” em favor do filme. Coisa que só um “funcionário” como Machin poderia nos oferecer. À serviço do cinema, deveria ser o seu lema. Nada mais anacrônico e necessário para os dias hoje, não?

 

 

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