Inimigos Públicos

O sacerdócio de Mann

 

Certa vez perguntaram a Jacques Rivette, o que é o cinema? “Luz, distância e escolhas”, resumiu. Essa poesia que emerge da métrica e do extraordinário trabalho com o espaço fílmico é o que faz a grandeza de “Inimigos Públicos” (Public Enemies, 2009), de Michael Mann. E tudo começa com uma escolha: filmar em digital. A possibilidade da câmera-móvel, trêmula, ágil e, ao mesmo tempo, os grandes e reflexivos planos, tão cinematograficamente compostos!  Pode-se falar, sem exagero, numa moral das imagens.

Se a trajetória de John Dillinger e seus comparsas remonta aos antigos seriados de televisão, há algo aqui, para além da textura das imagens, que resgata essa dívida. Provavelmente, a articulação clássica entre trilha sonora, personagens e texto.

No entanto, “Inimigos Públicos” é menos uma narrativa, do que um traçado, quer dizer: temos uma geografia mais do que uma história. Um homem em movimento, cuja utopia era encontrar um lugar onde queria estar...

Toda a progressão dramática do filme se desenvolve em torno das escolhas do espaço. Naturalmente, são os locais por onde passa esse homem sem futuro e psicologia - sobre o qual tudo que precisamos saber se resume a duas ou três linhas - que conformam seu destino, sua persona. É o suficiente para testemunharmos seu itinerário e para amá-lo.

Da primeira à última cena. Do pátio externo de uma penitenciária à sala de exibição (theatre), corredores, estações de trem...Os enormes bancos e seus cofres. São dessas locações que provém toda a poética de Mann.

Não por acaso o registro do fim de uma era, a dos crimes-espetáculos, é admiravelmente sintetizada na constatação de que a coreografia dos assaltos, na qual Dillinger era mestre, é ultrapassada subitamente pela nova mecânica do crime, representada por um porão repleto de telefones, através dos quais é possível fazer “rios de dinheiro” com apostas.

Claro, falamos dos anos 30, do século passado, época em que se acreditava também no cinema como espaço de reordenamento do caos da vida, desse mundo sem lei. Reafirmar essa fé nos dias de hoje, não é menos que um sacerdócio para Michael Mann.

 

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