Marguerite Duras
O “Durastógrafo”, uma proposição...

É mais do que particular ou original. A produção audiovisual de Marguerite Duras requer, sobretudo, imaginação. Como no caso de Bresson, que recuperava o termo “cinematógrafo”  para sintetizar sua busca estética, talvez seja apropriado pensar em algo semelhante, um “Durastógrafo”, para nortear essa imersão nos filmes da cineasta e escritora francesa.
Tal movimento remonta às origens, do cinema: o registro mecânico e inescrupuloso da máquina como porta aberta a novas  percepções e captação do invisível (Bresson); e da arte: esse partilhamento, comunhão do processo artístico (Duras).
Talvez o cinema, eterna promessa de síntese de todas as artes, seja o meio ideal para expressar tamanha generosidade.  Em suas obras, o que Duras nos oferece, entre outras coisas, é a oportunidade de criar também. Imagens, narrativas, espaços. Porque seu impressionante trabalho fora de quadro nos convida a partilhar do seu processo criativo. Seus filmes estão para além de nossas capacidades e,  pelo esforço que nos impõe, nos torna melhores. Ao fim de cada um deles, mais capazes.
Pode soar esotérica, quase neurolinguística a abordagem...Mas não há o pragmatismo da interatividade, nem estamos no território sem lei das instalações.  Ao contrário, os filmes de Duras são interativos e, às vezes, têm a forma de instalação, por outro lado é notável sua anterioridade...Estão lá, parecem se emanar de muitos séculos atrás, antes dos dois termos e práticas existirem...São um mergulho nessa motivação original...que se perdeu. Surgem como índices dessa perda, hoje cada dia mais irremediável. Como Bresson, nos faz pensar em como seria o cinema de volta às origens do cinematógrafo, Duras sugere o que seria de nós com a arte. Sem a arte, já sabemos bem.

 

Marguerite Duras

Cartografia

 

"Era preciso descer a falésia,

vencer o medo.

O vento sopra do continente,

repele o oceano.

As ondas lutam

contra o vento.

Elas avançam,

ralentadas por sua força,

e pacientemente

alcançam a parede.

Tudo se esmigalha

Eu te amo

mais além de ti..

Eu amaria quem quer.

que ouça que eu grito

que te amo.

Trinta mil anos.

Eu chamo.

Eu chamo aquela

que me responderá.

Eu quero te amar.

Eu te amo".

 

Trecho de “As Mãos Negativas”, de Marguerite Duras.

Tradução: Maurício Ayer

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