Prime Suspect e The Shield
Dois policiais wellesianos

 

A busca da verdade exige um percurso. Tanto melhor quando  cabe a arte revelá-lo. Orson Welles, por exemplo, tinha o seu próprio caminho. Provavelmente, a questão central de sua obra tenha sido descrever esse estranho itinerário, do qual o inspetor Quinlan em “A Marca da Maldade” é peça-chave.

Podemos dizer que os detetives Vic Mackey (Michael Chiklis) e Jane Tennison (Helen Mirren) nasceram de uma costela de Quinlan. Para quem não está familiarizado com o universo das séries de tevê, convém informar que eles são, respectivamente, os protagonistas de “The Shield” e “Prime Suspect”, dois triunfos do gênero policial no âmbito televisivo.

Ambos compartilham com o alter ego de Welles essa procura algo acinzentada e instintiva pelo verdadeiro em meio ao caos. E o mais interessante é que nem a  integridade à toda prova da detetive de Mirren, em contraposição ao cinismo de Mackey, exime, um ou outro, do sentido trágico, devastador embutido em tal ofício.

Não havia redenção possível para Quinlan, que precisava forjar provas para restabelecer a verdade, encontrar um culpado para os crimes. Também não há qualquer traço de pacificação para Tennison e Mackey ao longo das sete temporadas de cada série.

Como o avatar wellesiano, eles temem o crepúsculo de suas carreiras por estarem irremediavelmente feridos, absorvidos pelas trevas do cotidiano policial – e porque não dizer humano.

Sem suas insígnias, só lhes resta a vida “comum”, civil, aquela mesma vida profanada e caótica, sobre a qual eles conservavam a ilusão de poder ordenar, impor algum tipo de justiça.

Tem muito a ver com o processo de criação, da arte em si. Daí a relevância das duas séries, atualmente exibidas desde as primeiras temporadas nos canais pagos. “Prime Suspect”, às terças, no Megapix; e “The Shield”, às quartas no People and arts (Primeira temporada) e sextas (Sétima temporada) no AXN.

Não fosse por outros tantos motivos, bastaria um olhar mais atento sobre o cuidadoso ritual de Tennison antes de cada interrogatório ou a extraordinária complexidade de Vic Mackey, em sua fascinante espessura (a)moral, para reconhecer a poética desses dois anjos caídos. Tal como Quinlan, condenados ao esquecimento e à solidão.

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