A mise-en-scène do corpo

 

“Queria que a alma fosse o corpo”

Trecho de Je Vous Salue Marie, de Godard

 

Pode sugerir misantropia, mas qualquer grande ator precisa incorporar ao seu repertório dramático certo grau de automatismo. Robert Bresson já sinalizava para essa necessidade ao preconizar seus “modelos de vozes brancas”, o tom monocórdio e a ausência de psicologia na construção dos personagens. Não por acaso, Hitchcock, por outros meios, compartilhava da mesma idéia ao minimizar a importância dos atores em seus filmes. Há ainda uma célebre imagem de Fritz Lang orientando Brigitte Helm nas filmagens de “Metropolis” em que a atriz mais parece uma marionete, tamanha a precisão das indicações do cineasta. 

Tal mecânica ganha ainda mais relevo nos dias de hoje, quando a maior parte dos realizadores não tem a mínima idéia do que querem de seus atores. Cabe a cada um se virar por conta própria. Tome-se como exemplo recente Mickey Rourke em “O Lutador”. Darren Aronofsky se limita a seguir os passos do ator. E não é um documentário!

A câmera na mão, quase sempre no cangote de Rourke, não revela, mas, sobretudo, não se posiciona sobre o que é mostrado. Apenas registra, como diria Bresson, “com a falta de escrúpulos de uma máquina”.

Naturalmente, então, o corpo de Rourke se impõe como a mise-en-scène ausente do filme. São seus gestos mecânicos (pois repetitivos), como o bater nos cotovelos antes de cada luta ou a dança inusitada para Marisa Tomei, entre outros momentos, que conferem força criativa, elã e ritmo ao filme. Eles nos prepararam para o grande momento de epifania de “O Lutador”: o reencontro, para além das mudanças físicas, do rosto deformado, da incidência do tempo, com a mesma potência de olhar do início da carreira de Rourke, surpreendentemente intacto apesar dos anos de aviltamento, no caso do ator e do personagem também.

Ainda mais admirável é que “esse resgate” nada tem a ver com um eventual processo de sensibilização de um homem rude ou boçal – em nenhum momento da trajetória de seu personagem ou de sua carreira, Rourke demonstrou falta de sensibilidade, antes o contrário, uma vulnerabilidade enorme, da qual o seu corpo é  testemunha.

Portanto, a grandeza de “O Lutador”, como filme, é restaurar esse corpo como espaço vulnerável, mas também abrigo, daquilo que somos e preservamos, independente das aparências. E devemos tudo isso a Rourke, um ator.

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