Duas obras-primas de nossa época (?!)

Se a política dos autores não tivesse sido formulada há mais de 50 anos e o regime do star system continuasse em vigência como naquela época, ainda assim "A Troca" seria, sobretudo, um filme de Clint Eastwood. Não importa que hoje não houvesse um Truffaut, um Godard, Rivette ou Rohmer. As grandes obras têm esse poder de despertar o melhor de cada um, de nos ultrapassar...E tal evidência se imporia.
Não é exagero afirmar que há tão poucos críticos da estatura de um Chabrol ou de um Bazin atualmente, por falta de mais filmes como "A Troca". É que o estatuto artístico e autoral conquistado pelo cinema, particularmente após a Nouvelle Vague, baixou a guarda da crítica, arrefeceu as paixões. E essa falta de combatividade pode embotar os sentidos.
O amor exige provas constantes para manter-se intenso. "A Troca" nos oferece, pelo menos,  uma irrefutável, a mais importante: a de que, em se tratando de cinema, a mise-en-scène é tudo.  Que dizer: se imaginássemos o filme de Eastwood sem diálogos ou com outra atriz qualquer que não Angelina Jolie e a história dessa mãe em busca do filho desaparecido se traduzisse unicamente em imagens e sons, teríamos "A Troca" em sua integridade artística.
Talvez por isso Eastwood não tenha se incomodado em assumir um projeto sob encomenda para outro cineasta de perfil e trajetória tão diferente do seu quanto Ron Howard.
E se tal argumento, o triunfo da mise-en-scène, soa demasiado abstrato ou subjetivo, convém sugerir outro exercício: há algum diálogo particularmente inesquecível no filme? Angelina Jolie ou John Malkovich nunca fizeram algo parecido antes? Há alguma revolução da linguagem cinematográfica?
Por outro lado, como esquecer a austeridade das interpretações de ambos ou não notar a cadência musical da câmera de Clint; a solidão, o vazio, a tristeza que evoca o seu passeio pelos cômodos vazios da casa da protagonista. É um efeito restaurador, o que dependendo do contexto pode ser a maior das ousadias.
Em tempo: a música também é assinada por Clint Eastwood. Não por acaso, ela surge antes da primeira imagem do filme. É o estado de espírito que norteia "A Troca". Sua relação com o que é que mostrado nunca é de subserviência, de complemento. Eastwood constrói essa autonomia na exata proporção dos sentimentos que ela é capaz de expressar. A isso também chamamos de poética. Do contrário, qual a razão de se levar para as telas mais uma dita história real?
Já o não menos belo "O curioso caso de Benjamim Button", de David Fincher, nos propõe outra questão pertinente: Porque adaptar um livro, no caso um conto de Scott Fitzgerald? Uma resposta possível: para mostrar o mecanismo de um relógio às avessas, que conta o tempo de maneira regressiva. Um objeto, cuja simples existência/presença transcende qualquer descrição. A isso chamamos de cinema, do "específico fílmico" dessa arte dos exteriores. Outrora já fora "a grande metáfora" que os norte-americanos nos ensinaram a amar. Perdoem a tautologia, mais é de amor e de provas que se trata tudo isso.

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