Joaquim Pedro de Andrade

A pedagogia da coexistência

 “O Aleijadinho” (Brasil, 1978), de Joaquim Pedro de Andrade, é um trabalho de sobreposição.  Nada mais adequado à forma, ao tema e ao propósito desse projeto.
Joaquim Pedro renuncia ao registro puro e simples em favor da coexistência. Das expressões artísticas: o cinema e a escultura. E também no âmbito da técnica: empreende uma operação táctil e antropomórfica rara na cinematografia mundial.
Ao percorrer a obra do grande artista mineiro Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, imprime tal relevo à superfície da tela, que cada traço, entalhe, sulco, milagrosa modulação e peça sacra se impõe como algo, ao mesmo tempo, concreto e espiritual.
Note-se que não há no percurso da câmera de Joaquim Pedro nada mais  que vultos de pessoas, pedra, madeira, ferro, edificações... E, mesmo assim, em nenhum momento sentimos falta da presença humana, nem sequer do movimento.
À imagem do filme sobrepõem-se imagens, de santos, apóstolos, ícones, resgatados de sua imobilidade, de sua própria natureza inanimada pela transmutação do processo artístico.
Para além dessa notável fusão dos elementos, há outra perspectiva não menos desafiadora: a do cinema educativo. O que só ressalta a atualidade e importância da revisão de “O Aleijadinho”.
Como “O Carro de Bois”, de Humberto Mauro, que rangia dolorosamente num lado (qualquer) esquecido do caminho – naquele retrato tão justo quanto desencantado da “triunfante modernidade brasileira” – o cinema como ferramenta educacional parece sofrer do mesmo abandono.
Do grandioso projeto “estado novista” para disseminar a educação através dos filmes, restaram vestígios, exemplos de entonação, vigorosos e distantes, como  “As Brasilianas”, de Mauro; ou este tardio “O Aleijadinho”, de Joaquim Pedro.
Obras representativas de uma época em que as “eventuais tarefas educacionais do cinema” eram entregues a artistas e não a técnicos pragmáticos.
A poética de Joaquim Pedro conserva essa naturalidade pedagógica de encarar a arte como instrumento, também, de revelação do mundo. Um mundo de camadas sobrepostas e intercambiáveis, de arquiteturas impensadas...Em certo sentido, epifânico. Como o mundo de Aleijadinho.

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