Batman
O Cavaleiro das trevas anuncia o fim do “cinema de arte”. Ainda bem!

O epitáfio pode parecer precipitado. Como outrora, pôde soar a publicação neste mesmo espaço da extinção do cinema narrativo. Mas há uma certa coerência nestas notas fúnebres. É que, o responsável pela “boa nova”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan, de um só golpe, põe fim a eficácia da distinção entre “cinema comercial e de arte”, como restaura a narrativa cinematográfica tradicional em todo o seu vigor.
A partir de agora, a diferença entre o filme dito artístico e o industrial, é algo estritamente econômico. A interessar apenas a contadores e financistas. Talvez sempre tenha – ou deveria ter – sido assim, mas precisávamos de um impacto da envergadura do atual “Batman” para recolocar a questão.
A obra-prima de Christopher Nolan reconfigura o mercado. Se é possível, dentro da estrutura de um blockbuster, produzir um filme de tamanha complexidade, então, felizmente, podemos virar a página “Sundance”, sem nenhuma saudade, do capítulo “o cinema contemporâneo dos EUA”. A meca do cinema “independente”, consolidada por Robert Redford, que já dava sinais de desgaste, agora está superada. Ainda bem!
O melhor cinema dos EUA, como é tradição, está sendo feito nos grandes estúdios. Para as massas. De certa forma é algo que já se anunciava desde “Missão Impossível”, de Brian De Palma.
No entanto, De Palma conserva alguma reputação de autor. Mas o que dizer de David Fincher, com o seu extraordinário “Zodíaco”? E só neste ano, “O Homem de Ferro”, de John Favreau (!); e “Fim dos Tempos”, de M. Night Shyamalan?
Não há mais desculpas. Excetuando-se os grandes artistas que ainda fazem cinema – Straub, Pedro Costa, Sokurov, Rivette, Godard e Rohmer – os melhores filmes atuais vêm do “coração das trevas”, da demonizada Hollywood.
Esse renascimento do cinema popular, em larga escala, não apenas atualiza um legado, é uma questão de sobrevivência para o formato de distribuição que conhecemos: o da sala de exibição. Além do mais, cristaliza a assertiva que perpassa “Batman – O Cavaleiro das Trevas”: a de que o herói não existe sem o vilão e de que um acaba modulando o outro.
E não há como negar: o Coringa de Heath Ledger não é o único a embaralhar essas certezas, a imprimir nuances cinzentas nesse preto no branco.
Basta ver, por exemplo, o filme de Nolan e “A culpa é de Fidel”, de Julie Gravas, e se perguntar: onde está o cinema? Ou, quem precisa de “filme de arte”? Ele serve a quê? Julie Gravas e outros realizadores afins vão continuar a produzir. Um Rohmer, um Godard...Continuam com a mesma dificuldade. Não há mercado para eles, só para o circuito dos filmes de arte...
Na verdade, “Batman” está para o atual cinema norte-americano, como a “Idade da Terra”, de Glauber Rocha, esteve para o cinema brasileiro dos anos 80. É o ponto de virada. No Brasil, a promessa de construir um cinema na terceira margem, reserva criativa e original para oxigenação da linguagem, foi traída, abandonada pela incompreensão da beleza monumental de “A Idade da Terra”. Nos EUA, “Batman” é o restaurador. E o público de lá, talvez dê a resposta que negamos à Glauber. Eles retomam seu caminho e nós continuamos sem nenhum para trilhar...
Pois, mais contundente que qualquer brincadeira de Michael Moore, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” é o documentário de como os EUA vivem hoje. E tem a genialidade de tratar disso sob a maquiagem borrada do Coringa e a truculência tecnológica de Bruce Wayne. É político, sem panfleto ou espalhafato. Discreto, subterrâneo como seu personagem, o novo “Batman” é o filme da década!

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