Séries de TV
A subversão dos personagens

A certa altura nada mais importa. Só os personagens. No extraordinário penúltimo episódio da mais recente temporada de Law and Order – Criminal Intent (Canal AXN  às quintas 21h); as mirabolantes tramas e premeditações de crimes, matéria-prima da série,  ultrapassam qualquer resquício de verossimilhança e inteligibilidade. Tudo se articula e se legitima em torno dos personagens do detetive Bob Goren (Vincent D’Onofrio) e sua parceira Eames (Kathryn Erbe). Sem preocupação com a lógica e a progressão dramática, Goren forja uma identidade falsa, promove um prosaico atentado com um tijolo e vai preso para investigar uma série de assassinatos numa penitenciária próxima à Nova Iorque e, sobretudo, proteger o sobrinho que fez a denúncia.
A premissa, que lembra “Shock Corridor”, de Sam Fuller, evolui para um delicado jogo de cumplicidade com a parceira Eames, que, da delegacia, acompanha os passos do colega por meio de mensagens no celular. Tudo, da prisão de Goren durante um final de semana de folga à comunicação com a colega, quase mediúnica, é desprovido de qualquer decupagem racional.
Convém ainda ressaltar, para quem não acompanha a série, que pesa sob Goren, para além do seu brilhantismo intelectual, uma aura de fragilidade mental - sua mãe, morta recentemente, era esquizofrênica; seu irmão, viciado em drogas, é um sem teto.
Mas o que impressiona em  tanta margem para a irracionalidade, é a sua manifestação num veículo quase cartesiano como as séries de tevê, último bastião da narrativa tradicional, em que o roteiro é tudo.
O que ser dizer com isso: a impessoalidade da mise- en-scène intrínseca aos programas televisivos - com raras exceções como o episódio dirigido por Tarantino para o CSI - desloca para o argumento, o roteiro, a estória em síntese, toda a atenção e fruição estética. Não fosse pelos personagens, seria mera literatura, com ilustrações em movimento.
A novidade é que essa pequena subversão, através da qual os personagens apagam o roteiro, acontece na atual franquia mais famosa e perene da televisão norte-americana – conhecida justamente pelo poder das estórias, como sempre ressalta o seu criador Dick Wolf.
De certa maneira, é um pressuposto válido para o Law and Order principal (Universal Channel, às segundas 23h), cujos personagens já mudaram algumas vezes e as tramas continuam fortes. No entanto, esse mote parece cada vez menos apropriado para os descendentes Law and Order – SVU (Universal Channel, às terças 23h) e o Criminal Intent em questão.
Quando se cristalizava a sensação de que cinema é mise-en-scène e televisão é roteiro, surge Goren para embaralhar um pouco. Há os personagens, essa terceira margem sobre a qual é possível abrigar pequenas narrativas livres, irracionais. É preciso estar atento a isso.

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