Onde os fracos não têm vez

Em torno do dinheiro

 

“A idéia de uma propagação vertiginosa do mal e o surgimento final do bem”. Assim Robert Bresson resumia o programa de “L’Argent”, seu último filme. Por mais que pareçam estranhos os caminhos, o itinerário bressoniano é reencontrado no mais recente trabalho dos irmãos Joel e Ethan Coen, “Onde os Fracos não Têm vez”.

Obras de naturezas distintas, os dois filmes convergem para um mesmo objeto/conceito: o dinheiro. Em Bresson, sintetizado numa nota falsa de 500 francos. Para os Coen, numa mala recheada de dólares. Se em “L’Argent” a nota falsa, é quase a protagonista da primeira parte do filme, o motor dessa “cadeia do mal”; não é menos sugestiva as transformações que o dinheiro sofre ao longo de “Onde os Fracos não Têm vez”: da assepsia organizada dos primeiros planos da mala, mesmo quando o entorno, sobretudo de onde ela se origina, é caótico, poeirento e putrefato; aqueles dólares, como no  retrato wilderiano, permanecerão incólumes, enquanto todo o restante monetário entrará em deterioração.

Mais do que senha fatalista (a moeda, sobretudo) todo o dinheiro subseqüente, que aparecerá em “Onde os Fracos não têm vez”, será sujo, sangrento, mortal.

Como no caso do filme de Bresson, baseado em Tolstoi; a obra dos Coen é adaptada do romance de Cormac McCarthy. Nos dois casos, é a ênfase nesse objeto, o dinheiro, que confere autonomia artística aos filmes em relação os livros. Afinal, como bem definia Bresson, “o cinema(tógrafo) é uma arte dos exteriores”.

Mas se o “dinheiro” é o tráfego que perpassa os dois filmes, o fim desse percurso é bem diferente em cada obra. Em Bresson, o faux billet é travessia, neste sentido é admirável o plano contra a luz da nota de 500 francos (veja foto), incapaz de lhe atestar qualquer legitimidade ou falsidade, opaco, como o é, tanto o mal quanto o bem, sem a intervenção das pessoas, que lhe conferem direção e moral.

Na poética dos Coen, o dinheiro é sempre fim, nada o atravessa, ninguém resistirá a ele, como uma inclinação mesmo para o mal. E apenas os que o margeiam sobreviverão para atestar seu rastro destrutivo.

Restam ainda as similitudes entre Anton, o assassino interpretado por Javier Bardem; e o Yvon (Christian Patey), de “L’Argent”, simples funcionário de um posto de gasolina cujo contato ocasional (sempre o destino!) com a nota falsa o levará à tragédia. Os dois se entregam aos seus respectivos destinos como mártires. Combatem o mal, com um mal maior ainda. Em certo sentido, são santificados pelo mal. Pois se o mal está por toda parte, seria insuportável para todos não encontrar um corpo, que seja um, para encarná-lo. E é isso, dar um corpo para o invisível, que faz o grande cinema e, também, a grandeza desses dois filmes assombrosos.

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