Rohmer

Contos do cinema mudo

 

A certa altura da bela entrevista que fez com Eric Rohmer para a série “Cineastas de Nosso Tempo”, o crítico Jean Douchet, com um indisfarçável ar genetiano, indaga o criador dos “Contos Morais” sobre os numerosos diálogos em seus filmes. O francês contrapõe-se à provocação de Douchet dizendo se sentir, ao lado de Godard e Rivette, como um realizador do cinema mudo.

Sem qualquer cinismo ou ironia, placidamente, tal afirmação rohmeriana coloca sob nova perspectiva a habitual indiferença ou desinteresse pelos filmes de Eric Rohmer. Pois se para os seus detratores, esse cinema é muito falado; outra corrente, não menos numerosa, o associa ao escapismo sentimental, ao naturalismo nostálgico ou revisionismo histórico. Em qualquer desses pontos de vista, Rohmer continua incompreendido.

Por tudo isso é natural que o enquadrem como menos transgressor, cinematográfico ou radical que alguns de seus pares da Nouvelle Vague. Não por acaso, na sua resposta, Rohmer se alinha a Godard e Rivette, os mais coerentes e fiéis a si mesmos - e às suas idéias e afetos - entre todos os cineastas surgidos na França do Pós-Guerra.

Rohmer, o clássico, o prosaico, o culto, o discreto e também pode se dizer, com alguma ousadia, o mais dissimulado autor de cinema a fazer filmes pessoais.

Para explicar melhor o que ser quer dizer com “dissimulado”, no âmbito particular de Rohmer, podemos evocar uma imagem: a de John Ford ordenando que se corte a entrevista que concedia a Peter Bogdanovich, após algumas especulações deste sobre sua obra.

Desconsiderando a formação e o gosto pela discussão de Rohmer, não seria demais imaginar o autor de “O Raio Verde” tratando qualquer abordagem sobre seus filmes com igual ceticismo e pouca importância.

Mas Rohmer não é assim. E nem de longe vai ser...É o mesmo, paciente e dedicado que, cercado por cadernos de anotações, fitas-cassete, fotografias de atores e trechos de suas obras, põe-se a explicar sua arte e, com a mesma satisfação, corre, como um adolescente, pelas praias do litoral francês, atrás de uma jovem de 18 anos. E seu movimento, como o cinema que faz, é tão cheio de vitalidade e poesia, que, aos 90 anos, tudo lhe é natural e permitido. Rohmer, de fato, ultrapassa a todos nós.

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