Inland Empire

“Só o real é eterno”

 

Chega de brincadeiras. Em “Inland Empire”, David Lynch vai direto ao ponto. Sem charadas, guias para o entendimento ou cartografias decifratórias. Não há mais duplos, tramas (invertidas ou não) e personagens intercambiáveis. O cineasta norte-americano propõe uma desterritorialização radical. E para a qual não há como se preparar.

Lynch parece recriar, ao seu modo muito particular, a premissa dostoiveskiana (“Se Deus não existe, então tudo é permitido"). Pois se não há mais como acreditar nas possibilidades da narrativa, ele ainda se permite realizar obras-primas primitivas como esta.

É assombroso constatar como “Inland Empire” confere sentido (direção, não significado) às obras imediatamente anteriores de Lynch - notadamente “Estrada Perdida” e “Cidade dos Sonhos” - ao realizar um movimento às origens, do seu cinema e da história do cinema em geral. E ao fim desse percurso, nos oferecer essa obra do futuro ou que, pelo menos, sinaliza para essa “lost higway” do cinema total.

É que “Inland Empire” dispensa o simulacro do secreto, o prazer do enigma que prevalecia nos seus filmes mais recentes (com exceção do magnífico “História Real”) e também os fazia girar em falso. Não há recompensa para quem o decifra, como existia nos outros, por menor que seja.

Só há imagens, pessoais, raras, conflitantes umas com as outras, mas que não geram respostas, conseqüências...Imagens como uma moldura de possibilidades. É algo que coloca em perspectiva todo o cinema.

Afinal, é primitivo como se tudo fosse inventado naquele exato momento (com a liberdade dos pioneiros, de quem não se esperava nada mais que imagens, do registro de coisas e pessoas), mas só fruímos desse Império lynchiano na dimensão da trajetória do cinema, de tudo o que vimos, ouvimos e nos contaram em outros filmes.

É preciso saber de antemão que existem atrizes, como a soberba Laura Dern; uma câmera; um modo de produção de filmes; a filmagem; e canções. Lynch, como sonhava Herzog, quer produzir imagens novas, mas não guarda ilusões, como o alemão, sobre a possibilidade de captá-las, como se prescindisse da história do cinema para tal.

Assim temos, nas palavras de Lynch, “uma garota com problemas”, como muitas, de muitos filmes. Pelo fato de já a conhecermos, aí sim, será possível para nós, prescindirmos de uma trama, da lógica narrativa, para nos perdemos com ela.

“Inland Empire” é o futuro de hoje, como “A Idade da Terra” permanece futuro mais de 20 anos após seu lançamento. Ambos em contextos absolutamente distintos – Glauber, de formação batista e vocação messiânica; Lynch criador de sua própria “religião-científica” e cínico – atingiram seus propósitos como autores e artistas. Nos legaram obras totais, vastas e renováveis, porque, como expressa a senha glauberiana, “só o real é eterno”.

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