Redacted

A potência do falso segundo De Palma

 

Brian De Palma está se reinventando? Ou diante do exílio na Europa (voluntário ou não) só lhe restava essa alternativa? De Palma tornou-se um revolucionário, um crítico feroz da política exterior dos EUA? Ou é um oportunista que, de fora do mercado (Hollywood), se sente mais à vontade para assumir a posição de “artista engajado”?

Por fim, De Palma abriu mão do seu famoso estilo, dos traços hitchcokianos, da verve clássica? Ou reconheceu que o cinema narrativo de ficção foi superado pelas amorais e devastadoras novas formas de captação de imagens?

Qualquer que seja a opção, a resposta mais precisa, nada reduz a força de um filme como “Redacted”, exibido na Mostra de SP e prêmio de direção em Veneza 2007, ou sua capacidade de formular questões, de colocar em perspectiva um tipo de cinema em que não há cinema, só simulacro do cinema.

O filme forja (?) gravações em celular, videologs, um diário digital, imagens de câmeras de vigilância e até um documentário francês para (re)criar/constituir o cotidiano dos soldados norte-americanos no Iraque, durante a atual ocupação ianque. Mais detalhadamente resgata o estupro (da filha adolescente) e assassinato de quase toda uma família iraquiana, em Abu Grabi.

De Palma se arrisca pelos domínios da potência do falso, segundo a premissa deleuziana de restauração da verdade por meio do simulacro, mas sem a poética de um Orson Welles.

Em certo sentido, De Palma faz o seu “F for Fake” possível, desencantado, sujo, quase abjeto. É um registro de época, das (im)possibilidades criativas e autorais dos dias de hoje. Se com “F For Fake” a assinatura de Welles reverberava em cada fotograma, amalgamando uma obra (como conjunto mesmo) de uma beleza e coerência extraordinárias; o simulacro de “Redacted” só amplifica o vazio, a impessoalidade de De Palma neste filme. Uma obra-prima sem autor? Um ensaio sobre manipulação? O horror no coração das trevas? Ou a morte do cinema?

Nem as fotos de guerra, pretensamente objetivas no seu registro da barbárie, nem o tom operístico do final, redime “Redacted” da sua intrínseca ambigüidade. E é isso que o faz, para além de oportunista, oportuno, grande e anticinematográfico, como nenhum outro filme contemporâneo.

Jonas Mekas

“Servir ao cinema e não às pessoas”

 

No simples e seco documentário “In the Shadow of the Light”, exibido na 31ª Mostra de São Paulo, Jonas Mekas, um dos maiores nomes do cinema de vanguarda e responsável pelo principal arquivo de filmes do gênero, o Anthology, sintetiza assim o seu trabalho quase quixotesco à frente do museu: “Servir ao cinema e não às pessoas. O cinema é bom, as pessoas não”.

Difícil pensar em algo mais apropriado para resumir a sensação pós-festivais (Rio e SP). Os dois principais eventos cinematográficos internacionais do país parecem ter optado já há alguns anos. E a escolha de ambos é óbvia: cada vez mais pessoas, mais filmes, mais filas e menos cinema.

No caso específico de São Paulo ainda é possível uma autocrítica. Em meio à péssima seleção de 2007, uma brecha para a exibição das cópias restauradas dos assombrosos e monumentais “Tabu”, de F. W. Murnau; e “A Idade da Terra”, de Glauber Rocha. Duas obras futuras, renováveis, como fontes que não se esgotam em meio ao árido cenário cinematográfico. Se existe uma ecologia do cinema, Glauber e Murnau acenam para a possibilidade de sobrevivência, de respiro. “Tabu” e “A Idade da Terra” equivalem a uma floresta amazônica cercada pelo deserto estético do atual meio ambiente do cinema.

Também na seção dedicada às obras restauradas, na Mostra de SP, outro filme imenso e restaurador do cinema: “Lost, Lost, Lost”, de Jonas Mekas. A partir de registros da sua chegada aos Estados Unidos como exilado, Mekas, de origem armênia, imprime anos de sua vida, de seus afetos, de sua solidão em película, num movimento generoso que se contrapõe ao fetichismo reinante na maioria dos filmes exibidos no evento paulistano.

Aliás, é possível dividir a programação da Mostra em filmes fetichistas, do qual o grande expoente é “Paranoid Park”, de Gus Van Sant; seguido de perto por “Help Me Eros”, do outrora promissor Lee Kan Cheng (não por acaso ator-fetiche de Tsai Ming Liang); e filmes que escapam dessa avassaladora tendência pós-moderna.

Daí o retorno ao classisismo de Jacques Rivette em “Não Toque no Machado”, despontar como provavelmente o grande filme contemporâneo em exibição na Mostra. A volta de Rivette às histórias de “amor louco” reconstitui uma modernidade perdida, com seu valores e anacronismos. Tábua de salvação para olhares nostálgicos ainda não dessensibilizados, apesar das recentes edições da Mostra de SP e festivais afins.

Nas antípodas da elegância, do vigor da mise-en-scène rivettiana, está o talvez outro grande destaque do festival: “Redacted”, de Brian De Palma. Um filme sujo, feio, anticinematográfico, obra-prima possível nos dias atuais. Um filme sobre as possibilidades do cinema nos anos 2000. Ou melhor, sobre a ausência delas, que nos fazem desesperar.

Continua....

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