Friedkin

Um sonho de cinema puramente físico

 

Costuma-se elogiar uma narrativa que flui, mas o que dizer quando a narrativa resulta inteiramente de fluídos, excrescências do corpo, suores, babas, sangue, pele e outras erupções orgânicas?

O sonho do cinema puramente físico realizado.

É o caso de “Bug”, de William Firedkin. Obra de feitura clássica, quase uma pedagogia envolvente da linguagem cinematográfica, em que cada plano é editado saborosamente, com elegância e felizmente nenhuma inventividade.

Pois não se trata de trangredir, mas sim de arrancar das entranhas da mais tradicional das formas, algo subcutaneamente sensorial e, por isso, com repercussões devastadoras.

O tour de force dos protagonistas de “Bug” – Michael Shannon (um tipo pasoliniano) e Ashley Judd – é quase táctil...Sua paranóia é tão crível que, como toda boa paranóia, deixa de ser importante. O que importa é como ela se engendra, como na sua vertigem, somos tragados e, sobretudo, como nos descartamos de qualquer lógica possível para nos sucumbirmos a ela.

“Bug” não é completamente ininteligível, mas aponta para isso...Nada do que é dito, da trama, dos personagens tem maiores relevâncias. Na verdade, o que Friedkin faz, com certa ironia, é mostrar como não precisamos de nada disso para ver irromper algo fisicamente fascinante através do cinema.

Paradjanov

Duas ou três coisas que eu sei dele

 

Quando o cineasta de origem armênia Serguei Paradjanov foi preso sob a acusação de tráfico de ícones, ainda na década de 1970, Jean-Luc Godard se ofereceu para tomar o lugar do colega na prisão. Mais do que militância, o gesto de Godard expressava, para além da admiração, o horror à possibilidade de interrupção de uma filmografia fulgurante.

O que se sabe de Paradjanov, e não é muito em razão do quase total ineditismo de sua obra no Brasil, confirma a assertiva godardiana.

Da linhagem de Pasolini e Glauber Rocha -  “a obra como o próprio corpo do realizador” - e instigado, como Werner Herzog, pela quimera das “imagens virgens”, que parecem inventadas no exato momento de sua captura; o cineasta eslavo acrescenta a tudo isso, uma espécie de força cósmica, magmal, cuja câmera tem o poder de fazer emergir, como se viesse do centro da terra.

Assim é o caso de “Cavalos de Fogo” (1964). No filme, que andou sendo exibido pelo canal pago Telecine Classic (hoje “Cult”), Paradjanov ilumina o amor de dois jovens, Ivan e Marichka, pertencentes a famílias rivais. O resumo pode sugerir alguma aproximação com “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare.

Mas se o cineasta se vale desse arquétipo, todo o seu desenvolvimento é distinto. A começar pelo local em que ambienta sua história, os Cárpagos, uma região marcada por códigos e geografia interditas a quem não pertence àquele cenário.

E para revelar a vida desse lugar, a câmara de Paradjanov assume a condição de entidade metafísica, um espírito em vertigem, que flutua por entre pessoas, árvores, casas, flores, gravetos e pradarias, como se nada tivesse espessura.

E quanto mais Paradjanov revela, mais misteriosa é a sensação de unicidade que rege aquele mundo. A ponto de não mais se distinguir o amor da ira, a religiosidade da bruxaria, uma paisagem do  universo. Essa idéia de comunhão cósmica, de totalidade, perpassa todo o filme.

Tal como o último desejo do herói trágico de “Cavalos de Fogo”: ser enterrado com as vestes de sua infância.

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