Juventude em Marcha
Encontro
com Ventura (ou A ventura de um encontro) 

 

“A metáfora me faz desesperar”.

Franz Kafka

 

“Não gosto quando as pessoas começam a interpretar coisas escritas, não tenho nada a transmitir nos meus filmes”, adverte o realizador português Pedro Costa. Seu penúltimo trabalho, “Juventude em Marcha” (PORT/FRAN, 2006) é, naturalmente, assim, sem nunca ser naturalista: concreto como duas paredes que se erguem; vertical e, ao mesmo, sem horizonte definido.

É tamanha a sua latitude, que não avizinhamos onde começa, onde termina seu território. Conhecemos da sua geografia apenas passagens, intervalos no tempo e no espaço, através dos quais somos apresentados a Ventura, um imigrante caboverdiano, que, como um espelho, reflete as pessoas e os ambientes que estão à sua volta. Não é um personagem tradicional, é um ente, cuja passagem e presença faz reverberar emoções, lembranças, escritas, afetos, revoluções, ideais...Seus, mas, sobretudo, dos outros.

Costa, como é do seu feitio, não inventa nada. Sinaliza com Ventura para a possibilidade de construir um filme sobre um corpo, capaz de agregar, na sua materialidade fugidia, novos parâmetros narrativos.

Sabe-se que Ventura reaparece no mais recente trabalho de Costa, um dos segmentos do projeto da Fundação Calouste Gulbenkian, “O Estado do Mundo”. Outra oportunidade para reencontrar (a nossa) Ventura, talvez um caminho, um diagnóstico utópico em tempos sombrios, por meio de um homem-coletivo, que aceita a todos como filhos. A individualidade cedendo à fraternidade, algo novo e possível: a juventude em marcha...

Epístolas

A carta de(a) Ventura  

 

"Nha cretcheu, meu amor, o nosso encontro torna a minha vida mais bonita há, pelo menos, mais de trinta anos.

Pela minha parte, volto mais novo e cheio de força. Eu gostava de te oferecer 100 mil cigarros, uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos, um automóvel, uma casinha de lava que tu tanto querias, um ramalhete de flores de quatro tostões.

Mas antes de todas as coisas, bebe uma garrafa de vinho do bom, e pensa em mim. Aqui o trabalho nunca pára. Agora somos mais de cem. Anteontem, no meu aniversário, foi altura de um longo pensamento para ti. A carta que te levaram chegou bem? Não tive resposta tua. Fico à espera.

Todos os dias, todos os minutos, aprendo umas palavras novas, bonitas, só para nós dois, assim à nossa medida, como um pijama de seda fina. Não queres? Só te posso chegar uma carta por mês. Ainda sempre nada da tua mão. Fica para a próxima.

Às vezes tenho medo de construir estas paredes, eu com a picareta e o cimento, e tu, com o teu silêncio. Uma vala tão funda que te empurra para um longo esquecimento. Até dói cá dentro de ver estas coisas, mas que não queria ver. O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como erva seca.
Às vezes perco as forças e julgo que vou esquecer-me."

 

Juventude em Marcha, de Pedro Costa

 

Fonte e agradecimento: http://wwwamarcord.blogspot.com/2006/11/juventude-em-marcha.html

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