Zodíaco

Novos marcos para o entretenimento

 

Tudo é uma questão de volume em “Zodíaco”, de David Fincher. Da metragem, quase três horas, às informações e personagens fragmentados no decorrer do filme. Mas, sobretudo, o volume de expectativas que Fincher, felizmente, frustra a cada plano. De um filme sobre uma onda de assassinatos em série, espera-se um thriller cheio de reviravoltas e crimes ... De uma vultosa produção norte-americana, imagina-se as triviais concessões narrativas. Enfim, de um cineasta com o currículo de Fincher (“Clube da Luta” e “O Quarto do Pânico”) era provável resultar uma emulação de “Seven”.

Não é, definitivamente, o percurso de “Zodíaco”, uma obra anacrônica, de um tom monocórdio que se vale do espiral de incertezas espraiadas ao longo da narrativa para elaborar sua tensão e definir sua trajetória. Trata-se, antes de tudo, de consolidar novos marcos para o entretenimento. Segundo os quais, por exemplo, a regra de ouro da identificação espectador/personagem é burlada. Dos protagonistas do filme, e são vários, não sabemos muito, sequer o suficiente para nos importamos com o seu destino – e se há um senão à “Zodíaco” é, justamente, quando no último terço do filme se esboça alguma intimidade com a personagem do cartunista/investigador, vivido por Jake Gyllenhaal.

Longe de sugerir qualquer misantropia do diretor, a opção ressalta o que realmente importa para Fincher: o processo de investigação, que avança mais pelas incertezas, pelo esvaziamento e falhas, do que por conclusões e acertos.

A habilidade de Fincher está em trabalhar com esses elementos anti-narrativos de modo a envolver o espectador nessa vertigem inconclusa, em que todos ficam pelo caminho em maior ou menor grau de devastação.

Só o cinema industrial norte-americano pode, no contexto atual, nos oferecer uma obra naturalmente desconstrutiva, sem se valer de qualquer status artístico ou metalingüístico. Algo totalmente orgânico.

Só um cineasta sem pretensões autorais (tão aviltadas nos dias de hoje, diga-se), como Fincher, é capaz de tamanha ousadia .

 

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