Fukasaku
Contos Cruéis do Japão


Em seu último filme já não havia esperança. O único meio de conter a delinqüência juvenil era envolver crianças e adolescentes num jogo da morte, em alguma ilha do Pacífico. Se a violência era irremediável, não havia outra alternativa a não ser a extinção da juventude através dela. Como grande parte de sua obra, "Battle Royale" foi um grande sucesso e, embora esteja longe de ser um dos seus melhores trabalhos, foi o desfecho natural da carreira de Kinji Fukasaku, morto em janeiro de 2003.
Mas o niilismo com que Fukasaku se rendia a era do espetáculo tecnológico da morte, seja através dos jogos em rede ou do próprio cinema, não disfarça o irredutível moralista que o cineasta sempre foi, sobretudo, em suas incursões pelos filmes de máfia.
Da linhagem tradicionalista de um Mishima, porém mais moderado, Fukasaku - se não fundou um pequeno exército para resguardar os valores e ideários do Japão feudal como fez o ilustre colega escritor - nunca teve escrúpulos em atribuir à vasta galeria de yakuzas de sua obra, o papel de reserva moral do Japão pós-Segunda Guerra.
Para Fukasaku, respousam nos ritos e códigos da organização criminosa os últimos traços de dignidade de um país, à época, mergulhado no caos e traumatizado pela rendição, ao qual se impunha sobreviver a qualquer preço, contrariando, inclusive, a simbologia, arraigada no imaginário nipônico, do harakiri coletivo.
Assim, é clara a opção pelo príncipio restaurador da "ordem Yakuza". Pois se não há alusão direta à religião nos filmes de Fukasaku, difícil ignorar que a relação com o sagrado é mediada por esse grupo fechado, de regras fixas e invioláveis. E até por isso, no contexto do vale tudo da ocidentalização, marginal.
Não por acaso, um dos filmes fundamentais desse período, "Graveyard of Honor", foi rebatizado na Itália muito adequadamente como "O Cemitério da Moral". Na fita, o protagonista, em seu delírio autodestrutivo, insurge-se contra a organização a que pertence. Não respeita hierarquia, valores ou tradições. É uma prévia da amoralidade que marcaria as próximas gerações japonesas.
Tal vazio - muito retratado nos filmes orientais contemporâneos -, por outro lado, contrasta com o estilo vigoroso, direto, quase sujo dos "Yakuza Papers" de Fukasaku. Em última análise, autor de alguns dos mais belos e cruéis contos morais do cinema.

[ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, SALVADOR, VILA LAURA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Cinema e vídeo