Jean Marie Straub e Danièle Huillet

 

Eles são imensos!

 

Realizado pelo português Pedro Costa para a série “Cineastas do Nosso Tempo”, “Onde Jaz o Teu Sorriso?” Não é apenas uma investigação sobre o gesto, a expressão, o brilho ou o mistério que repousa entre um fotograma e outro. Embora também o seja - e de maneira estupenda. Mas ao eleger o casal de cineastas Jean-Marie Straub e Danièle Huillet para conduzir essa busca/revelação, Costa nos oferece um outro tipo de experiência, que transcende o desnudamento admirável que faz da montagem cinematográfica. Há um elogio quase epifânico do artesanato criativo do casal Straub/Huillet. Diante da moviola, enquanto descortinam os planos de "Gente da Sicília"(filme que finalizavam na época de realização do documentário), eles compartilham generosamente um pouco da vida, do afeto, da política, dos postulados morais e éticos que movem o seu fazer artístico.

Como no cinema mineral do casal, Costa extrai das superfícies mais insuspeitas toda a poesia, a intimidade, a beleza e dimensão revolucionária de seu registro. Seco, íntegro, à parte, evoca o milagre de Bresson de, através(sando) da imagem alcançar aquele "magma" que a "câmera capta com a falta de escrúpulos de uma máquina". Pode parecer anacrônico falar em reeducação do olhar, mas talvez olhar pela primeira vez, como no extraordinário travelling de "Gente da Sicília", que faz lembrar o "Contos da Lua Vaga", de Mizoguchi, e reconhecer aquela paisagem (o cinema) ainda habitável, apesar das afrontas, do cinismo, da indiferença, da impessoalidade e banalização.

Seria mais apropriado falar em reforma do "homem" e dos seus sentidos. Nada mais, nada menos. Algo da estatura das “velhas” utopias renovadas por Straub e Huillet em cada filme, que Costa sabe prosseguir, rejeitando a natureza invasiva do projeto (uma câmera nos bastidores de uma sala de montagem) para ressaltar o que há de caloroso e solidário na criação, para além de quaisquer facilidades tecnológicas. Em última instância, “Onde Jaz o Teu Sorriso?”  tem essa envergadura. É imenso! Não há outra forma capaz de enquadrar Jean Marie Straub e Danièle Huillet.

Confira trecho do documentário:

 

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