Fritz Lang

 

A maior das fatalidades

 

Um bom operador pode sempre iluminar de modo a que o espectador seja forçado a ver apenas aquilo que o cineasta quer que ele veja. No momento em que o olhar do espectador começa a vaguear e a interrogar-se sobre que coisa é aquela que está lá no fundo, perde-se o público”.

Fritz Lang

 

 

Fritz Lang nunca foi um romântico. É verdade que, enquanto durou sua ligação afetiva e profissional com Thea Von Harbou, ele fez algumas concessões. A famigerada conciliação de classes no final de “Metrópolis”; a paixão de Mabuse por uma condessa na segunda parte da tetralogia dedicada ao incontornável Doutor; o sacrifício da astronauta que abre mão de voltar à Terra para ficar com seu pretendente em “A Mulher na Lua”, entre outros. Mas mesmo nesses exemplos, já se previa algumas sombras à espreita de qualquer idealização amorosa. Tome-se o caso do Dr. Mabuse em “Um Jogo de Pessoas do Nosso Tempo”. Se o amor aqui esteve perto de humanizá-lo, sua conseqüência irremediável foi a loucura.

Romântico mesmo, na acepção byroniana do termo, é “A Morte Cansada”, em que uma recém casada “negocia” com a Morte uma maneira de acompanhar o marido no além túmulo. O amor como redenção, no entanto, tem os dias contados na obra de Lang.

Ainda na Alemanha, com “Os Nibelungos”, começa a ganhar contornos mais nítidos a visão de amor propriamente languiana. Baseado na mitologia germânica, Lang encena a terrível vingança de Kriemhilde. O amor inicialmente como índice da barbárie, ou para citar, Camilo Castelo Branco, “amor de perdição”.

Já nos EUA, tais matizes se fixam de maneira definitiva em seus filmes e a perdição, também no sentido de perda do amor, passa a mover seus personagens por terrenos fatais. Começa a galeria dos personagens vingativos, que vai de Spencer Tracy em “A Fúria” (primeiro filme de Lang na América), passando por Henry Fonda em “O Retorno de Frank James”, até chegar ao Glenn Ford de “Os Corruptos”.

Por outro lado, também há alguma luz por entre essas sombras do amor. Gene Tierney em “O Retorno de Frank James” ou Sylvia Sidney em “Vive-se Só uma vez” contrapõem-se às diabólicas Joan Bennet de “Almas Perversas” ou Gloria Graeme de “Desejo Humano”. A mulher como perdição, cede lugar à mulher como consciência, agora índice possível de civilização. Só para ilustrar, é Gene Tierney que lembra Fonda que seu fiel amigo e “inocente!” vai parar na forca, enquanto ele se lança na obsessiva vingança contra os assassinos do seu irmão, o lendário Jesse James.

Mas talvez o melhor exemplo da transmutação do amor na obra de Lang seja o freudiano “O Segredo da Porta Fechada”. O filme gira em torno de uma rica e mimada mulher (Joan Bennet) que se casa, meio por teimosia, meio por contestação, com um estranho de tendências homicidas.  O “capricho” de Bennet, no entanto, desperta a sua consciência para o amor. E apesar de ameaçada pelos impulsos assassinos do marido, ela não foge e prefere arriscar a própria vida. Bennet, enfim, aceita o amor como a maior das fatalidades.

Seria um fecho ensolarado para o amor na obra de Lang, não tivesse em um dos seus últimos trabalhos cunhado a imagem síntese de sua filmografia. No final de “O Tigre de Bengala”, seu antepenúltimo filme, o protagonista abandonado no deserto, inclusive pelo seu “amor”, num gesto supremo de ira, atira contra o próprio sol, como que a restituir àquelas sombras dissipadas pela ilusão do amor possível.

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