Marco Bellocchio

 

Noite sem fim

 

Às vezes um filme parece se colocar de pé diante de nós. Como uma estrutura independente da tela em que é projetado. Sua envergadura é diferente. É como se tivesse braços, pernas, olhos - Serge Daney já falava sobre os filmes que nos olham. Na recente retrospectiva dedicada ao cinema Político Italiano dos 60 e 70, durante a Mostra de SP, dois filmes do italiano Marco Bellocchio, presentes na seleção, tinham esse perfil vigoroso.

“De Punhos Cerrados” e “A China está Próxima” impressionam não apenas pela longevidade de suas abordagens – em síntese, a subversão da estrutura do poder familiar (no primeiro) e o teatro da política (no segundo) – mas, sobretudo, pela energia narrativa, própria de uma época em que o cinema desafiava o espectador com uma vertiginosa operação no pensamento.

Seria o equivalente político-autoral aos “blockbusters” de hoje. Um cinema de feitio popular, com a ambição de comunicar-se com o grande público, e que, embora em outra chave da percepção, incorporava o espetáculo como ferramenta de veiculação de idéias.

O mercado ainda não havia regulamentado sua oferta, não havia prateleiras dividindo o produto audiovisual entre "diversão" e "arte" . O cinema europeu, os filmes de autor, a pecha de “artístico”, não tinham o caráter restritivo, não eram um gênero em si, como agora. Tudo era cinema e, como tal, esses filmes gozavam da momentânea permissividade do circuito exibidor de então.

De lá para cá, o vigor narrativo tornou-se um anacronismo para os novos “autores” do cinema contemporâneo. Esteticamente também tornou-se um projeto inviável. A exigência do mercado impôs outra dinâmica, outro ritmo. Restaram cineastas do passado que, ainda em atividade, expõem no tecido de suas obras esses dois momentos. Como é o caso de Bellocchio. 

“Bom dia, noite” ( Buongiorno, Notte), um de seus últimos trabalhos, é um belo exemplo desse anacronismo. O filme retoma, quase 30 anos depois, o episódio do seqüestro e morte do líder da Democracia Cristã, Aldo Moro, pelas Brigadas Vermelhas. O vigor de Bellocchio, sua insubordinação política e coragem, permanecem intactas. Mas sua expressão é totalmente diversa, menos espetacular, desencantada. Os filmes, de uma maneira geral, parecem mais acomodados ao quadrilátero da tela. Fazem sua subversão discretamente. Daí, “Bom dia, noite” ser quase cronológico, límpido no seu registro. E se Bellocchio não chega a ser explicativo, as informações aqui já não jorram com a intensidade de outrora. A única ruptura em curso é de âmbito ideológico.

“Bom dia, noite” é resultado de uma contra-revolução e, por sua natureza, não faz tanto barulho. Como diria Godard na abertura de “O Pequeno Soldado”, “acabou o tempo da ação, começa o da reflexão”. Os filmes já não se põem mais de pé diante de nós, como antes. Eles assumem, quando muito, o espaço meditativo em que cabem no cenário da indústria cultural. O filme de Bellocchio é a prova disso. É mais um indício dessa noite sem fim.

E se curvar-se é inevitável, há sempre àqueles que conferem ao gesto alguma dignidade. Precisamos deles, entre outras coisas, para nos lembrar que é preciso também nos colocarmos de pé diante de certos filmes.

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