O sol

O céu fechado de Sokurov

 

Se em “Moloch”, a humanidade de Hitler era o seu traço mais monstruoso, pode-se dizer que, na tetralogia do mal concebida pelo russo Alexander Sokurov, coube a Hiroito, o imperador do Japão, o “Sol”, que dá titulo a um dos seus mais recentes trabalhos, o signo do patético. Um passo adiante do que havia esboçado em “Taurus” - segundo filme do projeto, no qual recriara Lênin - o humor triste, trágico, às vezes constrangedor, já não surge esquivo, discreto, nas antípodas da imagem. É a força motriz de um processo de negação...Do divino, da divindade entre os homens.

“O Sol” trata, sobretudo, da inviabilidade da imagem do sagrado num século marcado por duas grandes guerras mundiais. A caracterização ritualística de Issey Ogata, o seu perfil chapliniano (os soldados norte-americanos o comparam a Carlitos) traduzem nos pequenos gestos e inflexões de voz também a negação de Sokurov a uma representação naturalista, seja dos bastidores do poder ou do horror da guerra.  

Perece interessar ao cineasta russo essa alienação interior que assombra em Hiroito e sua repercussão trágica na vida do Japão, na história do século 20. O mal que nasce da imagem que é atribuída a um homem, e da qual, a custa de milhares de vidas ou que quer que seja, ele tenta alienar-se.

É uma história sem culpados aparentes (o que é evidenciado na conversa de Hiroito com o general norte-americano), mas cujas marcas ainda sentimos, através de um céu fechado, neste filme terreno, sem horizonte, cujo sol, quando aparece, é para revelar as ruínas e os escombros desse projeto humano a que chamamos de civilização.

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