Honor de Cavalleria

 

Um apóstolo chamado Dom Quixote

 

O cineasta catalão Albert Serra esteve em São Paulo para participar da 30ª Mostra Internacional, onde exibiu seu primeiro longa metragem, “Honor de Cavalleria”. Passou praticamente incógnito, apesar da trajetória premiada de seu filme. Na única entrevista que concedeu à grande imprensa, falou do seu apreço por Robert Bresson, mas rejeitou qualquer comparação. O nome de Bresson têm sido evocado correntemente, na maioria das vezes em vão, como nos casos de Bruno Dumont e Tsai Ming-Liang.

Basta um filme não ter atores expressivos, prescindir de trilha sonora e apresentar um ritmo mais contemplativo para a associação com o método inimitável do mestre francês. Deve se dizer que “Honor de Cavalleria” não utiliza atores profissionais e parece adotar a mesma filosofia do escritor português Camilo Castelo Branco, para quem a “música é um ruído como outro qualquer”. Isso não faz do filme algo próximo do exemplar bressoniano da “cavalleria”: “Lancelot du Lac”. Felizmente.

A obra de Albert Serra é rigorosa, econômica, direta. Os créditos de abertura se resumem a uma cartela com o nome do filme, diretor...o essencial. O desfecho segue a mesma linha, não há cerimônia. “Honor de Cavalleria” é o tipo de filme que parece já ter iniciado antes de o encontrarmos e prossegue depois que o deixamos. Não à toa. Afinal o seu protagonista já vem de muitas aventuras, é Dom Quixote de La Mancha, o monumental personagem de Miguel de Cervantes. Em torno do qual, livros e filmes já se debruçaram sem cessar.

Essa idéia de trânsito, de registrar uma passagem é a essência da proposta do filme. Filmar a espera que antecede a aventura, a lucidez que antecipa a loucura, o momento antes de tudo que conhecemos e aprendemos a admirar no “cavaleiro da triste figura”.

Por tudo isso “Honor de Cavalleria” é um filme bíblico, sobre origem, o princípio, a descoberta do verbo. Demasiado humano, o Quixote de Alberta Serra não precisa de grandes desafios, moinhos ou situações embaraçosas, para se afirmar um transgressor, um revolucionário, um clarividente. O seu único interlocutor é o fiel companheiro Sancho Pança. Para ele, Quixote é uma espécie de apóstolo, cujos ensinamentos e observações não prometem um mundo celestial, mas a terra, a natureza mesmo...Daí a necessidade de continuar no caminho.

A certa altura Quixote diz para Sancho: “A cavalleria é a civilização, que reconhece os que mentem e os que falam a verdade”.  Para onde seguimos, não sabemos - o filme termina na penumbra, da qual não avistamos mais do que silhuetas dos personagens – mas Albert Serra nos honra - e muito com este seu belo filme – através do percurso.  

Mostra de SP

 

A hora de separar o joio do trigo

 

São muito filmes - mais de 300 longas e algumas dezenas entre curtas e médias - mas apenas  uma constatação: é preciso ver menos filmes. Para quem acompanhou as últimas dez edições da Mostra de SP, que completou 30 anos em outubro, a receita do “quanto menos melhor” é a única chance de sobrevivência em meio a essas maratonas que, a depender do ritmo, contribui mais para a dessensibilização do olhar do que para ao seu apuro.

Portanto, se no começo o orgulho era relatar quantos filmes se viu, agora a medida está mais para o número de fitas que se evitou. Em outras palavras: de quantas “bombas” se escapou.

No entanto, esse fausto anual de filmes tem uma vantagem: apontar para as tendências do cinema mundial, diagnosticar o estado das artes ou, ao menos, sua expressão através dos filmes. E novamente a constatação é límpida: o cinema contemporâneo acabou como narrativa. Só é possível como desconstrução. Prova disso é que os melhores filmes da recente edição da Mostra de SP rompem com a narrativa, reconhecem essa inviabilidade estética e nos oferecem blocos alineares, livres de qualquer preocupação narrativa, oblíquos, indiretos...É o caso do bíblico “Honor de Cavalleria”, do catalão Albert Serra, que registra momentos, passagens do clássico “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes; de “Hamaca Paraguaia”, de Paz Encina, um filme todo encenado fora do quadro, em que a imagem é um índice superado; “O Sol”, de Alexander Sokurov, no qual encontramos o imperador Hiroito a partir das antípodas da imagem que se tem dele, ou melhor, da própria negação do personagem e do filme, sobre a possibilidade de se ter uma imagem; ou ainda do poema concreto que é "Juventude em Marcha", de Pedro Costa.

Fora isso, o vigor narrativo repousa intocado em filmes do passado, como “Banditti Orgosolo”, de Vittorio De Seta (cujo último filme “Cartas do Saara”, também exibido na Mostra, só ratifica essa tese), em “De Punhos Cerrados” ou no magnífico “A China está próxima”, ambos de Marco Bellocchio, para não falar de “Bandidos de Milão”, de Carlo Lizzani.

Em breve, críticas dos filmes referidos.
[ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, SALVADOR, VILA LAURA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Cinema e vídeo