Humberto Mauro

 

“O Carro de Bois” e o lado esquecido do caminho*

 

O curta-metragem “Carro de Bois” (1974) é o último trabalho como cineasta do mineiro Humberto Mauro (1897-1983). Em 50 anos de atividade cinematográfica, percorrendo da ficção ao documentário científico e educativo, Mauro realizou, entre longas, médias e curtas-metragens,  cerca de 370 filmes, dos quais, conforme catalogação de Carlos Roberto de Souza (Cinemateca Brasileira), 357 para o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE), órgão criado em 1936 sob a égide nacionalista de Getúlio Vargas.

Com o propósito de, através do cinema, difundir a história, os hábitos populares, riquezas naturais, descobertas científicas e tecnológicas do País, adotando um enfoque fundamentalmente educacional, Mauro, durante o período em que esteve no INCE (1936-1967), elegeu, por mais de uma vez, o carro de bois como assunto. Há registro de, pelo menos, dois curtas realizados nessa época. O primeiro de 1945, cuja cópia se perdeu, e o segundo, mais conhecido, de 1956 (“Manhã na Roça: o carro de bois”). 

“Exemplo de primitivismo a serviço do progresso”, nas palavras de Mauro, o carro de bois, não por acaso, é retomado quase trinta anos depois da primeira abordagem - e após a extinção do INCE – como objeto de um filme crepuscular e desencantado. O antigo “rei das estradas brasileiras” agora era algo irremediavelmente condenado a “um lado esquecido do caminho”. Produzido pelo então Instituto Nacional de Cinema, o “Carro de Bois”, de 1974, mais do que a despedida cinematográfica de Mauro parece lamentar o fim de um projeto de cinema educativo que, sob a batuta do cineasta mineiro, afirmou-se como experiência fundamental para a fundação de um estilo brasileiro de filmar, de uma escrita cinematográfica genuinamente nacional.

Essência maior - Espécie de síntese autoral da obra de Humberto Mauro, o curta-metragem “Carro de Bois” (1974) desponta como objeto privilegiado para se investigar os ecos da experiência nacional de educação através do filme, notadamente do período de atividades do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) que, sob a direção no antropólogo Edgar Roquette-Pinto, marcaria profundamente a filmografia do cineasta mineiro e o seu estilo cinematográfico, identificado por críticos como “as raízes do cinema brasileiro”, e que o revisionismo de Glauber Rocha foi ainda mais longe ao afirmar: “essência maior que não foi percebida”.

Por amalgamar não apenas o “aprendizado” no INCE, mas as diferentes fases da carreira de Mauro - do ciclo regional em Cataguases nos anos de 1920, passando pela “desnaturação” urbana (segundo o crítico Paulo Emílio Salles Gomes) na Cinédia, do “hollywoodiano” Adhemar Gonzaga, entre 1930 e 33, até o retorno à sua cidade natal, Volta Grande-MG, para filmar seu último longa-metragem, “Canto da Saudade” (1952) – “Carro de Bois”(1974) é exemplo de que as “raízes” maureanas, evocadas pelo crítico e realizador Alex Viany no argumento de “A Noiva da Cidade” (1979), continuam vivas e a oxigenar a cinematografia nacional, cuja trajetória em muito se assemelha a do próprio realizador mineiro – seja atualmente no renascimento do filme documental, seja na busca de descentralização dos núcleos de produção (possível retomada dos ciclos regionais ?) ou na tentativa de consolidação de uma indústria audiovisual, grande parte pautada nos padrões televisivos, equivalente imagético, pelo seu alcance e popularidade, ao que representava a Hollywood de outrora.  

Subdesenvolvimento - Na genealogia do cinema brasileiro, conforme Glauber Rocha delineou em sua revisão crítica, Humberto Mauro é o avô e Paulo Emílio Salles Gomes, o pai. Portanto, além da obra glauberiana, o estudo que Salles Gomes dedica ao cineasta mineiro, “Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte”, é ponto de partida para analisar e problematizar a trajetória (ainda no subdesenvolvimento ?) da cinematografia nacional e de seus diferentes ciclos e tendências – como é o caso da experiência com o filme educativo e, particularmente, com o desfecho da longa carreira maureana no curta-metragem “Carro de Bois”(1974).

No livro de Salles Gomes estão fundamentados, por exemplo, os principais entraves à fundação de um cinema genuinamente brasileiro, exemplificados na trajetória de Mauro, ou melhor, naquilo que “desnaturava” o cineasta. A saber: as influências de Adhemar Gonzaga, jornalista carioca e cultor de um cinema próximo dos “padrões hollywoodianos”, no período da Cinédia, e de Edgar Roquette-Pinto, diretor do INCE, associado, por Salles Gomes, ao discurso oficial, à idéia  amorfa e burocrática da repartição pública.

Pólos em torno dos quais também gravita o cinema nacional em constante oposição às “ideologias hegemônicas do imperialismo internacional” e à cooptação dos seus grandes autores pelos organismos oficiais (vide as experiências não apenas do INCE, como do Instituto Nacional de Cinema e, posteriormente, da Embrafilme).

 

*Trecho de Anteprojeto de monografia - O lado esquecido do caminho:

Crepúsculo do cinema educativo brasileiro no curta-metragem “Carro de Bois” (1974), de Humberto Mauro - para o curso de especialização “Imagem e Sociedade – Estudos sobre o Cinema”

 

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