Casal Straub-Huillet

 

Este encontro com eles

 

Premiado pela “inovação da linguagem cinematográfica” no último Festival de Veneza, Quei Loro Incontri (“Este Encontro com Eles”) novo filme de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet deve repetir o destino de quase toda obra do casal: permanecer inédito no Brasil. Fora da seleção do Festival do Rio, que divulga a exibição de mais de 300 filmes, e com poucas chances de chegar à Mostra de SP, que já se avizinha (de 21/10 a 05/11), a indiferença pelo trabalho de Huillet e Straub é mais uma prova da miopia instalada nos curadores dos principais festivais de cinema do País. Até Leon Cakoff, criador da Mostra de SP, que havia trazido os últimos dois longas-metragens do casal (“Sicilia!” e “Operai, Contadini”), parece rendido à insensibilidade geral. Cakoff afirmou em texto que comenta a premiação em Veneza que o filme é lindo, “mas não é cinema”.

Quei Loro Incontri, baseado nos cinco últimos "Diálogos de Leucò", do italiano Cesare Pavese, que fala do retorno dos Deuses entre os homens em cinco seqüências de alguns poucos planos, parece muito para "a visão terrena" do comentarista Cakoff.  

Ao mesmo tempo, o cineasta brasileiro Carlos Adriano em texto publicado na internet relata o privilégio não só de ter visto o filme em pré-estréia na França, como o seu encontro com os dois cineastas. Para Adriano, "trata-se de quase uma súmula concentrada da obra de Straub-Huillet. Além do cuidadoso detalhamento – com transcrição de alguns diálogos do filme - e da justa análise sobre Quei Loro Incontri, o cineasta brasileiro disponibiliza, como resultado de sua afetuosa conversa com o casal, alguns dos postulados éticos e estéticos dos dois artistas. Em sintonia com o cinema mineral de Straub-Huillet, o texto de Adriano desperta uma genuína emoção pela “materialidade transcendente”, nas palavras do cineasta brasileiro, que também é capaz de evocar.

É o suficiente para lamentar o ineditismo do filme entre nós. Não o fosse, tomar partido de Straub-Huillet-Adriano, mesmo sem ter visto o filme - mas conhecendo a obra e a sensibilidade dos envolvidos – significa exercer com coerência o que podemos chamar de cinefilia crítica. Explicando melhor: do que vale ver tantos filmes se não se aprende a separar o joio do trigo? Se não se é capaz de cirurgicamente escolher o que se deve ver? Ver tudo, como recomenda a coerência consumista, significa embotar os sentidos, brutalizá-los a ponto de não mais se diferenciar um grande filme da produção medíocre. Ou para citar Straub:"Cultura não consiste em ter tudo, mas em ter pensado concretamente em algumas coisas".

Contraste com o clima dos festivais, nos quais se impõe uma maratona de filmes, que alguns "cinéfilos" cumprem para além do esforço físico e intelectual, como se tratasse de uma competição. Vêem 100, 150 filmes, mas não vêem um Straub-Huillet, ou se têm a chance de ver, levantam-se nos primeiros minutos, impacientes pelos outros filmes que virão.

Neste sentido, não surpreende a ausência dos trabalhos de Straub-Huillet nos festivais brasileiros, como de regra nos eventos cinematográficos pelo mundo. Não parece mesmo o local apropriado para quem, quando faz um filme, preocupa-se em "achar imagens que não bloqueiem a imaginação do espectador".

Então nos resta agradecer ao Carlos Adriano pelo relato e esperar pelo próximo filme do casal Straub-Huillet que não veremos. Como diria Scorsese em relação a Glauber Rocha – muito amigo de Straub por sinal – “é preciso merecer ver os filmes dele”.

 

Confira o texto do Carlos Adriano:

 http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2758,1.shl

 

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