O pornógrafo 

Um filme inocente

 

Por Adolfo Gomes

(cineadolfogomes@yahoo.com.br)

 

Conta a lenda que o fracasso comercial de “O Pornógrafo” levou seu diretor, o catarinense João Callegaro, a abandonar o cinema por uma bem sucedida carreira publicitária.  A julgar por esse começo promissor não há como discordar da constatação do crítico Inácio Araújo: “perdeu o cinema brasileiro, perdemos todos nós”. Pois o filme realizado em 1970, sob a égide do chamado ”cinema marginal”, é provavelmente o mais lúbrico e inocente da cinematografia nacional, um elogio ao poder da fabulação, de uma pureza assustadora. Se a trama nos sugere acompanhar a trajetória do imigrante italiano Miguel Metralha (Stênio Garcia) no mundo da pornografia, o que importa de fato é evidenciar o mecanismo da invenção colocado em marcha por Callegaro. Uma espécie de arte “da avacalhação”, como já sinalizava Rogério Sganzerla em  “O Bandido da Luz Vermelha” (outra obra-prima marginal), que se insurge contra qualquer tipo de restrição, seja de produção, temática ou estética – para não dizer política. O mesmo tipo de inquietude e curiosidade que perpassa o protagonista Miguel Metralha, ao trocar o estável emprego de redator em uma revista “oficial” pela editora clandestina de quadrinhos pornôs. Ele é movido pela vontade de mudar, de romper com as histórias sem fantasia desse gênero de publicação. Metralha quer fugir ao determinismo pornográfico da vida que emperra a criação e, no seu caso, como desabafa logo no início do filme, reserva-lhe apenas dois caminhos:”imigrante italiano nesse país é gângster ou quitandeiro”. Por mais datada que possa parecer a observação, seu propósito é claro: nos introduzir ao imaginário do protagonista, cujas imagens de mafiosos de Hollywood - de Edward G. Robinson, a Paul Muni, de Humphrey Bogart a James Cagney – funcionam mais como contraponto, do que como referência. Quer dizer: não se trata de emular as influências, mas de encontrar uma expressão pessoal através delas. E isso vale, sobretudo, para Callegaro que, para além das inúmeras citações a que recorre durante o filme, consegue imprimir frescor e originalidade em cada imagem.

Também não faltam subtendidos ao filme. Como na cena em que Metralha, após assumir a direção da editora clandestina na qual trabalha, toma posse da mesa do seu ex-chefe e com cara de quem faz uma travessura coloca no colo o porta-retrato de uma mulher (talvez a esposa do patrão) e acende um charuto, como se saboreasse um fellatio. A seqüência é o primeiro indício de subvsersão do novo diretor da editora, o que em última instância, por sua ousadia e capacidade de fabulação, vai conduzi-lo a destruição.

Não por acaso, o desfecho de “O Pornógrafo” acontece num parque de diversões. O ritmo ágil, a linguagem dos quadrinhos ora utilizada com a divisão da tela, a inocência de Metralha e o humor pastelão, amplificam o caráter de grande brincadeira, do lúdico em oposição à pornografia.

Muito comentando por marcar a primeira aparição na tela do hoje cineasta Carlos Reichenbach, no papel de um lacônico mordomo (surpreendentemente parecido, ainda que pese a diferença de estatura, com os tipos encarnados pelo diretor espanhol Jess Franco), “O Pornógrafo” tem muito mais a revelar sobre um cinema de traço popular e inegável força criativa que não teve a chance de se encontrar com o público.

 

O Pornógrafo (Brasil, 1970)

Direção: João Callegaro

Roteiro: Jairo Ferreira e João Callegaro

Elenco: Stênio Garcia, Edgar Gurgel, Carlos Reichenbach, Júlia Miranda e Sérgio Hingst

 

[ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, SALVADOR, VILA LAURA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Cinema e vídeo