Bresson tem olhos para o impossível

Por Adolfo Gomes

(cineadolfogomes@yahoo.com.br)

 

Diante da obra de Robert Bresson a história do cinema assume a perspectiva do Abraão de Kierkegaard que, aos 130 anos, não tinha ido mais distante que a fé*. Pois da fé, como do amor, só ficam as evidências, que são seus filmes, tão marcantes quanto exemplo de Isaac, filho de Abraão, oferecido em sacrifício.

Não à toa, Jean-Luc Godard sentenciou: “Depois de Bresson, é preciso começar do zero”. Por que se antes de Abraão não conhecíamos a fé, sem Bresson nos faltaria uma escrita para o cinematógrafo. Então, temos essas imagens e sons a dar forma a uma ontologia de seres e coisas que não admite efeito ou psicologia.

Bresson filma homens e objetos como iguais, pois opera em uma arte de exteriores. O milagre de seu método está em atravessar essa superfície cujo sentido é o da banalidade. Sua câmera propõe uma comunhão de outra ordem: com o invisível.

É um percurso estranho, porque o invisível para nós é o indício de Deus, ou antes, a Sua ausência. E há, no universo de Bresson, esse olhar ausente, que amplifica nossa tragédia.

Uma possível síntese da escrita bressoniana está na imagem da cédula falsa em “O Dinheiro”, seu último filme. Contra a luz, a nota ilegal revela sua marca d’água, reforçando que as coisas, como os homens, não têm valor em si. Esse valor advém do gesto, nosso para com os objetos, e de Deus para com a humanidade.

No entanto, a linguagem de Deus é o silêncio. Assim nos debatemos como os pássaros ao final de “O Processo de Jeanne D’Arc”. E se nos resta alguma esperança, e ela também está em seus filmes, é porque Bresson tem olhos para o impossível.

Isolamento – De outra parte, Bresson só não conseguiu superar as limitações impostas pela indústria dos filmes, as restrições dos produtores, o que, em última análise, acabou por interromper sua carreira. À medida que avançava em sua poética, menores eram as suas chances de obter financiamento. Após anos de tentativas frustradas de levar às telas um novo projeto, recolheu-se...Conforme escreveu o norte-americano Paul Schrader: “colocou-se além de qualquer comunicação, como Deus”. Retomou a pintura, segundo relato dos mais próximos. Mas não há vestígios dessas obras, talvez definitivamente encerradas na mitologia pessoal de um artista para qual “o outro” era o caminho para revelar a si mesmo.

 

Nota

*Não são raras as associações entre a obra de Robert Bresson e o pensamento do dinamarquês Soren Kierkegaard. Se Bresson se referia ao cinematógrafo para marcar a diferença entre seus filmes e o cinema convencional, Kierkegaard, por sua vez, jamais pretendeu ser filósofo, embora seus escritos acabassem por criar as raízes de uma nova corrente filosófica – o existencialismo. Bresson e Kierkegaard também compartilhavam a mesma convicção religiosa radical e, até determinado ponto da filmografia bressoniana, comungavam da mesma preocupação em investigar as relações da existência com a divindade. Para Kierkgaard, o estágio religioso era o último e mais importante salto que o indivíduo deveria empreender para interpretar-se e encontrar um sentido para sua existência.

Neste aspecto, parece apropriado resgatar o exemplo de Abraão, tal como evocado por Kierkegaard em um dos seus principais livros “Temor e Tremor”. Dessa obra, convém assinalar ainda o trecho seguinte: “Abraão, pai venerável! Milhares de anos se passaram desde esses dias sombrios, porém não é preciso um tardio admirador para tirar, pelo amor, a tua memória às potências do olvido, pois todas as línguas te lembram. E, entretanto, dás a recompensa a quem te ama por uma forma mais generosa de que ninguém; lá ensejas fazê-lo bem aventurado em teu seio e, aqui embaixo prendes o olhar e o coração com o maravilhoso de tua ação. Abraão, pai venerável! Segundo pai do gênero humano! Tu que por primeiro sentiste e manifestaste essa grandiosa paixão que despreza a luta terrível contra a preciosa ação dos elementos e das forças da criação para lutar contra Deus, tu que foste o primeiro a sentir esta paixão sublime, expressão sacra, humilde e pura, do divino frenesi, tu que adquiriste a justa admiração dos pagãos, perdoa a quem tentou cantar em teu louvor, se bem não soube desincumbir-se de sua tarefa. Falou de maneira humilde, conforme o secreto desejo de seu coração; falou de maneira breve, como era conveniente; porém jamais olvidará que te foram necessários cem anos para receber, contra toda a esperança, o filho da tua velhice e que foste obrigado a sacar a tua faca para matar Isaac – também não esquecerá que aos cento e trinta anos, não tinhas ido mais distante do que a fé”.


Entrevista Godard/Bresson

 

“A questão” * Parte I

 

GodardSuas idéia sobre o cinema – se as tem - têm evoluído e como? Como filma o senhor hoje em relação a como filmava ontem ou no início da carreira ? E como o senhor pensa o cinema depois de seu último filme? Eu me dou conta hoje de que tinha outras idéias sobre o cinema há três ou quatro anos. Agora não são as mesmas. Por tê-las, me vejo forçado a continuar fazendo cinema até que tenha novas. Digamos: Que relações têm com o cinema ? Não  digo em relação com o cinema que se faz, mas em relação com a arte do cinema.

 

Bresson – Vou comentar como é que me sinto em relação ao cinema que se faz hoje em dia. Ainda ontem alguém me dizia (é uma reprovação que me foi feita algumas vezes, sem querer, mas que é uma reprovação). “Por que jamais vai assistir a filmes?” Porque isto é absolutamente verdade, eu não vou assistir (1). Porque me dá medo. Precisa e unicamente por isto. Porque sinto que eu me afasto, que me afasto dos filmes atuais. Cada dia mais. E isto me dá um medo extraordinário, porque eu vejo que todos estes filmes são aceitos pelo público. E não vejo, de antemão, que meus filmes sejam aceitos pelo público. E isso me dá medo. Medo de propor uma coisa para um público que está sensibilizado com outra coisa e que é insensível para o que eu faço. Mas também por isso me interessa assistir a um filme de vez em quando. Com a finalidade de ver o que nos separa. Então me dou conta de que, sem querer, me afasto cada vez mais de um cinema que, na minha opinião, parte de um mau princípio, quero dizer, se afunda no music-hall, no teatro fotografado, e perde completamente a sua força e o seu interesse (e não apenas o seu interesse, mas também o seu poder); para ir para a catástrofe. Não é que os filmes custem demasiado dinheiro ou que a televisão seja uma rival, não: simplesmente o cinema não é uma arte; mesmo que pretenda sê-lo. Apenas é uma arte falsa, que tenta se expressar com a forma de uma outra arte. Não há nada pior nem menos eficaz do que este tipo de arte. No que se refere ao que eu mesmo tento fazer, com a imagem e com o som, é claro, que eu tenho a impressão de que sou eu quem está certo, e que são os outros os errados. Mas também tenho a impressão, em primeiro lugar, de que estou diante de  meios demasiados prolixos (que tento reduzir, porque o que está acabando com o cinema é a profusão de recursos, o luxo – e o luxo nunca contribui em nada para a arte)...E depois, de que estou em poder de recursos extraordinários. Isto me leva a dizer uma outra coisa: eu acho que as artes – as belas artes, se vocês preferirem - estão em declive, e inclusive perto do seu final. Estão para sumir.

Godard – Também eu penso isso.

Bresson – Não resta quase nada. Logo não existirão mais. Porém, uma coisa curiosa: se morrem por causa do cinema, da rádio, da televisão, foram precisamente este cinema, esta rádio, esta televisão, quem as matou...Por outro lado, também caberá a estes meios (cinema, rádio...) reconstruir uma arte, reconstruindo as artes – porém de um jeito completamente diferente, evidentemente, e, inclusive, pode ser que a palavra arte nem seja utilizada. De qualquer jeito já não será a mesma coisa. Graças ao cinema. E eu diria, graças ao cinematógrafo, porque eu gosto de mostrar a diferença, estabelecer a diferença, como fazia Cocteau, entre o cinema, quero dizer os filmes normais, e aqueles que constituem a arte cinematográfica. Assim, o cinematógrafo reviverá a arte que o cinema está a ponto de matar. O culpado, os culpados desta morte das artes, são os meios mecânicos atuais de difusão. Sobre isto, Ionesco falou algo muito belo e muito preciso em qualquer caso: nos encontramos diante de milagres. O cinema, a rádio, a televisão, são  milagres, porém o que não são milagrosos, são os filmes, as transmissões televisionadas, as reportagens radiofônicas. Aí a arte chega com atraso. Talvez não seja muito justo dizer que a arte chega com atraso com relação aos milagres, haveria que dizer mais justamente que a arte é assassinada pelos milagres, porém que deve reviver graças a esses milagres.

Continua...

Entrevista Godard/Bresson

 

“A questão” * Parte II

  

Godard - Eu não teria expressado isso desse jeito, porém penso também que se trata do final. Só que eu não tenho nem idéia de como...

 

Bresson- Como voltar a começar?

 

Godard - Sim, como voltar a começar.

 

Bresson - Eu acho que, não no cinema, mas no cinematógrafo, existe uma arte extraordinária, maravilhosa, mas que ainda não está dominada. Eu tento dominá-la. E não sou eu quem é maravilhoso, são os recursos colocados à minha disposição. Tento tirar proveito destes recursos, e de fechar a porta – e de trancar ela - para o teatro, que é o inimigo do cinematógrafo. E posso falar isto para você que emprega atores, e que sabe empregar eles...

 

 

Godard- Você quer dizer: o teatro é o inimigo do cinematógrafo, porém não sobre um palco...

 

Bresson- Evidentemente que sim. O teatro é o teatro. Por isto mesmo a gente do teatro que quer mudar o teatro, não o mudará jamais. Existe, não pode ser mudado, só se fosse uma outra coisa diferente do teatro. Porque quando querem mudar o teatro, quando querem misturar ele com o cinema, matam um e o outro, matam o cinema e o teatro. Não existe possibilidade alguma de misturar eles. Cada vez que o teatro entra no cinema, acontece uma catástrofe, e o mesmo acontece quando o cinema entra no teatro. Olhem para o que acontece quando querem fazer esses ruídos extraordinários, essas projeções, esses jogos de imagens... O que é tudo isso? Nada de teatro, absolutamente não.

Continua...

 

Entrevista Godard/Bresson

 

“A questão” * Parte III

 

Godard - Você falava um momento atrás dos atores...

 

Bresson - Os atores? Bom...

 

Godard - Eu não vejo a diferença entre um ator e alguém que não é, porque em qualquer caso trata-se de alguém que existe realmente.

 

Bresson - Mas essa, na minha opinião, essa é a questão. Ao redor disso gira tudo...

 

Godard - Se temos um ator de teatro, é preciso pegá-lo... Eu acho, pelo fato de ele ser um ator, que sempre podemos chegar...

 

Bresson - Não há nada o que fazer.

 

Godard - Chega uma hora, sem dúvida, em que não há nada a fazer, porém também há um momento em que se pode fazer alguma coisa.

 

Bresson- Eu tentei fazê-lo em outro tempo. Quase que eu consigo alguma coisa. Porém senti que se produz um abismo...

 

Godard- Porém, de todas as formas são um homem, ou uma mulher, que estão ali, diante de nós.

 

Bresson- Não.

 

Godard- Não?

 

Bresson - Porque eles adquiriram hábitos. Mas eu acho que entramos em demasiadas sutilezas, em abstrações. Seria necessário... Bom: eu quero terminar estas notas, esse livro que estou fazendo, no qual tudo é explicado (referência à conclusão do livro “Notas sobre o Cinematógrafo”). Preciso de muitas páginas para explicar o que acontece, para explicar a diferença que há entre um ator profissional que tenta fazer, que tenta esquecer, que tenta... E que não chega em lugar algum.

 

Godard - Mas, será que não podemos considerar apenas o ator como, digamos, um atleta, ou um corredor, quero dizer como um homem com certo preparo para fazer uma coisa? E nós não poderíamos usar esse preparo para obter alguma coisa, inclusive se não desejamos que...?

 

Bresson - Acredite que se eu pudesse obter aquilo que eu quero de um ator, não teria tanto trabalho! Porque tudo isto que eu faço dá muito trabalho. Se eu tivesse aceito atores, estrelas, seria rico. E eu não sou rico. Sou pobre. Isto é, em primeiro lugar, o que me faz parar e refletir. Não enquanto eu trabalho, mas depois.

Continua...


Entrevista Godard/Bresson

 

“A questão” * Parte IV

 

Godard - Eu não vejo a diferença entre um ator e alguém que não é, porque em qualquer caso trata-se de alguém que existe realmente.

 

Bresson - Mas essa, na minha opinião, essa é a questão. Ao redor disso gira tudo...

 

Godard - Se temos um ator de teatro, é preciso pegá-lo... Eu acho, pelo fato de ele ser um ator, que sempre podemos chegar...

 

Bresson - Não há nada o que fazer.

 

Godard - Chega uma hora, sem dúvida, em que não há nada a fazer, porém também há um momento em que se pode fazer alguma coisa.

 

Bresson- Eu tentei fazê-lo em outro tempo. Quase que eu consigo alguma coisa. Porém senti que se produz um abismo...

 

Godard- Porém, de todas as formas são um homem, ou uma mulher, que estão ali, diante de nós.

 

Bresson- Não.

 

Godard- Não?

 

Bresson - Porque eles adquiriram hábitos. Mas eu acho que entramos em demasiadas sutilezas, em abstrações. Seria necessário... Bom: eu quero terminar estas notas, esse livro que estou fazendo, no qual tudo é explicado (referência à conclusão do livro “Notas sobre o Cinematógrafo”). Preciso de muitas páginas para explicar o que acontece, para explicar a diferença que há entre um ator profissional que tenta fazer, que tenta esquecer, que tenta... E que não chega em lugar algum.

Continua...

Entrevista Godard/Bresson

 

“A questão” * Parte V

 

Godard - Mas, será que não podemos considerar apenas o ator como, digamos, um atleta, ou um corredor, quero dizer como um homem com certo preparo para fazer uma coisa? E nós não poderíamos usar esse preparo para obter alguma coisa, inclusive se não desejamos que...?

 

Bresson - Acredite que se eu pudesse obter aquilo que eu quero de um ator, não teria tanto trabalho! Porque tudo isto que eu faço dá muito trabalho. Se eu tivesse aceito atores, estrelas, seria rico. E eu não sou rico. Sou pobre. Isto é, em primeiro lugar, o que me faz parar e refletir. Não enquanto eu trabalho, mas depois.

 

Godard - É verdade: chega uma hora na qual os atores estão podres; mas, bom, quando escolhemos alguém não profissional, desde o momento que o escolhemos para fazer determinadas coisas num filme, ele interpreta, de um jeito ou de outro, fazemos ele interpretar.

 

Bresson - Não, absolutamente não. E aí é onde está a questão.

 

Godard - Bem, sejamos precisos: fazemos ele viver.

 

Bresson - Não. E aí chegamos numa explicação... Que eu preferiria deixar para uma outra ocasião. Já falei que eu escrevi algo sobre isto. E eu preferiria, se vocês querem, dar-lhes, quando o meu livro for publicado, as notas que eu reproduzo e que demonstram isto: que há um abismo absolutamente insuperável entre um ator, que inclusive tenta esquecê-lo, que tenta não controlar-se, e uma pessoa virgem para o cinema, virgem para o teatro, considerada como uma matéria bruta que não sabe nem mesmo que entrega para você tudo aquilo que ela não gostaria de entregar para ninguém.

Com isto vemos que existe algo muito importante, não apenas no que se refere ao cinematógrafo, mas também no que se refere à psicologia. Referente a uma criação que se transforma, que é uma criação...Seu corpo, com os seus músculos, com o seu sangue, com o seu espírito, que se junta à nossa criação. Porque este personagem virgem, entramos nele. Quero dizer, chegamos a colocar-nos no seu lugar, e de uma forma... Que eu não quero explicar agora porque nos levaria muito longe, simplesmente; chegamos a estar presentes no nosso filme, não apenas porque pensamos ele, porque usamos as palavras que nós escrevemos, mas porque estamos nele. Num ator, nós não podemos penetrar na sua pele. É ele quem cria e não nós.

 

 

 

(1)     Bresson, por fim, costuma assistir todos os filmes. (N.D.L.R.)

 

*(Trechos da entrevista com Robert Bresson publicada nos “Cahiers du cinéma”,n.º 178, maio 1966 a cargo de Jean- Luc Godard e Michel Delahaye.)

 

Tradução: DEPAC – Asociación Cultural Hispano-Brasileña (Belém)

Revisão: Adolfo Gomes

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