O bom selvagem segundo Jack Hill

Os norte-americanos sabem ser selvagens como ninguém. E nunca se esquivaram de mostrar isso, também no cinema. Pelo menos, nunca como em “Spider Baby”, conhecido ainda como “A mais louca história jamais contada”, filme realizado por Jack Hill em 1968.

A obra se insere na assustadora e estranha linhagem de filmes com personagens “matutos” que povoam uma enorme variedade de tramas ambientadas nos EUA. Algumas delas filmadas por cineastas “nativos”, como Wes Craven (“A quadrilha de sádicos”),  Dennis Hopper (“Sem Destino”), e até mesmo Vincent Gallo em  “The Brown Bunny”. Outra grande parte rodada por estrangeiros em seu primeiro contato com a América. Caso de “Amargo Pesadelo”, do inglês John Boorman; “Stroszek”, do alemão Werner Herzog; “Gente diferente”, do russo Andrei Konchalovsky, e mais recentemente  “29 Palms”, do francês Bruno Dumont.

Parte dessa tradição, Jack Hill, sem dúvida, contribui para o deslocamento, pós-western, do imaginário cinematográfico mundial em relação ao selvagem ianque: antes o índio, agora essa estirpe de gente munida de espingardas, bonés, suspensórios e camisas axadrezadas, que está sempre à espreita de incautos nos desvios das grandes rodovias, pântanos e vilarejos isolados. Mas ao mesmo tempo, a abordagem de Hill coloca tudo o que já se viu em outra perspectiva.

A grande sacada é tratar a selvageria dos EUA, seu gosto pela beligerância e “matutice” como uma patologia. Na abertura de “Spider Baby” um personagem bonachão, que mais tarde descobriremos como um dos protagonistas do filme, folheia um livro que cataloga “algumas doenças raras”.  A brincadeira é uma evidente referência à prática pedagógica muito comum ao cinema dos EUA de então, que se esmerava em prólogos ou conclusões científico-moralistas com o intuito de “reforçar a mensagem” e dos quais podemos citar exemplos tão diversos quanto o final imposto a Alfred Hitchcock em “Psicose” e o comentário estatístico-sociológico de “Os Delinqüentes”, primeiro filme de Robert Altman.

Mas não se deve confundir o bom (e negro) humor de “Spider Baby” com sátira, nem o gestual dos personagens como caricatural ou tosco. O filme de Hill é discretamente implosivo ao nos conduzir ao encontro de uma família acometida por uma dessas doenças raras do livro, cujo efeito sobre os seus descendentes é o de uma inevitável regressão ao estágio infantil. Assim as duas irmãs e o irmão que restaram em um casarão, à margem da civilização capitalista como “bons selvagens”, são capazes de, logo na sua primeira aparição no filme, mutilar um dedicado carteiro com a mesma naturalidade com que, mais tarde, vão comer insetos e se afeiçoar à repulsivas tarântulas. Como em todo bom filme norte-americano, tudo é literal. Portanto, a mensagem está dada: a correspondência que o curioso carteiro insiste em entregar é o anúncio da chegada dos “civilizados”, a parte “boa” e distante da família que vem reivindicar a propriedade.

O elo entre esses dois mundos é feito pelo mordomo-chofer da família interpretado por Lon Chaney Jr. com tal nuance, sinceridade e afeto que chega a ser tocante, principalmente se considerada a trajetória de Chaney Jr., filho de um mito de Hollywood e que, como o pai, viveu dias de glórias nos grandes estúdios e, sem jamais perder a grandeza, agora contracena com amadores em tramas sem a menor reputação. É ele quem cuida das “crianças”  e tenta fazer a ponte com o lado capitalista da família.

Naturalmente seus esforços são em vão. Também no mundo de Hill, esses dois pólos são inconciliáveis, restando ao lado mais fraco, a extinção. O desfecho presta tributo ao final de “A Morte num Beijo”, de Robert Aldrich, realizado quase quinze anos antes, no qual a ameaça nuclear já começava a esquentar a Guerra Fria dos anos subseqüentes. Em “Spider Baby” a ameaça é o mundo dito civilizado, avassalador frente a ausência de culpa “dos irmãos regressivos”.

 

Para Jack Hill, um realizador de fitas para drive-in’s e que depois faria filmes medíocres como “Foxy Brown”, com Pam Grier, a violência e o capitalismo na  América são questões patológicas. E o “bom selvagem”, algo absolutamente inviável por lá.   

 

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