Ervas Daninhas
A câmera  e as letras

É da demiurgia resnaisiana, sobretudo, que vamos tratar. Para criar seu mundo, Alain Resnais parece crer tanto na câmera, quanto nas letras. Não por acaso seu cinema, em alguns momentos, esteve atrelado a movimentos literários como o Noveau Roman.  E, ao teatro mais recentemente.
Nasce daí um paradoxo criativo cada vez mais complexo. “Ervas Daninhas”, seu último filme, era para ser, na aparência, um filme de “câmera”, no seu sentido mais amplo, material e íntimo. No entanto, há um complô, inscrições, citações e invasões (o termo parece mais adequado que “digressões”) de toda sorte no curso de sua narrativa.
Ao purismo da mise-en-scène, Resnais agrega, como num risco calculado, algo de desconstrutivista e irônico. É um equilíbrio delicado, beira a esquizofrenia. Pois de um filme de tanto rigor, espera-se um controle absoluto do que está sendo encenado. No entanto, há momentos em “Ervas Daninhas” em que tudo pode acontecer – e, infelizmente, isso não depende da câmera, da mise-en-scène – mas da (anti) progressão dramática da história.
Para ilustrar melhor: o filme pode de um diálogo ao outro, fazer a travessia dos gêneros – do “amor louco” à fita de serial killer, do kistch urbano  ao mistério da natureza (as falésias, acima de tudo), de “O pequeno príncipe” às “Pontes de Toko-Ri”.
Resnais, o “demiurgo”, cria nesse ambiente um mundo em que tudo é permitido, cuja lógica própria é sempre um enigma para quem não o habita. E, sem dúvida, em nenhum momento somos convidados a habitar esse mundo resnaisiano, encravado de “ervas daninhas”. Talvez porque o seu criador queira nos poupar do desespero  e da gravidade, com um sorriso de desconcerto, antes de nos oferecer um desfecho digno de Lewis Carroll.
Se Resnais foi  às últimas conseqüências aos 87 anos. Nós não. Por sorte, o filme está aí para envelhecer conosco.

33ª Mostra
Baldi, o realizador

A primeira sequência de “Fouco!”  (1968) se encerra com a imagem de Nossa Senhora sendo metralhada durante procissão em um vilarejo italiano. Não há qualquer tipo de explicação ou sentido conferido a esta ação ou as demais, ao longo do filme. Em nenhum momento, ficará claro para o espectador sobre a motivação daquele homem, que, de um sobrado, faz mira na imagem da santa e, depois, mantém em cárcere a própria família. Há a mulher, uma criança e um cadáver no corredor, entre a cozinha e o quarto.
Nada sabemos sobre o antes, nem o depois, quem eram ou o destino dos personagens.  A polícia que faz o cerco, revela seu nome, Mario; dá a entender que era uma pessoa pacata e respeitada na comunidade. Talvez atravessando um problema financeiro, o desemprego, nem eles, da polícia, sabem. Tateiam.  É tudo que teremos. Não há cartela explicativa. Seria uma história real? Um documentário fake?
O espantoso vigor de “Fuoco!” provém, grande parte, dessa tensão, do assombro que se origina dessa organicidade,  que torna anacrônico qualquer efeito narrativo ou  leitura estilística.   A obra mais do que negar respostas,  é uma experiência presencial, quase física. Nos sentimos exaustos após a projeção.
Gian Vittorio Baldi, o realizador, no entanto, deve ter mudado de opinião quatro décadas depois. Em São Paulo, como homenageado da 33ª Mostra de SP, pôs-se a detalhar as práticas de filmagem de  “Fuoco!” e, sobretudo, revelar as motivações dos personagens, durante debate em uma faculdade. Felizmente há o filme impresso e preservado.
É não menos espantosa a divergência entre o homem, pelo menos o que se apresentou na capital paulista, e o realizador. O que ele filmou e produziu, com o que diz agora. No final dos anos de 1950 pregava um certo franciscanismo na linguagem cinematográfica, traçando paralelo, hoje, com a carta de intenções do Dogma 95.
Nas décadas seguintes, produziu Robert Bresson, “Quatro Noites de um Sonhador”; Pasolini, “Notas para uma Oréstia Africana”; entre outros. Mas nega qualquer afinidade de sua obra com a filmografia desses cineastas.
Como o Bergman dos últimos anos, é um perigo para sua própria trajetória no cinema, face a dissociação entre o que prega e o que já fez. O que nos leva a uma questão: a autonomia da obra de arte em relação ao seu criador.
Difícil desconsiderar as influências bressonianas em “Fuoco!” - a imantação do mal – e no extraordinário “O último dia de aula antes das férias de Natal” (L’ultimo giorno di Scola prima delle vacanze di Natale, 1975), em que há uma citação frontal à “Mouchette”, de Bresson. Também à Pasolini. Ao registrar um episódio dos estertores da Segunda Guerra, quando fascistas às vésperas da chegada das tropas americanas, seqüestram um ônibus escolar na região de Emília-Romagna, norte da Itália; Baldi tece um diálogo com “Saló”, não por acaso realizado no mesmo ano e seguinte à sua experiência como produtor de “Notas para uma Oréstia Africana”.
Revelação tardia, e razão de ser da última Mostra, a obra de Gian Vittorio Baldi continua a se impor para além e apesar de quem a criou. Ainda bem.

Alfred Machin

À serviço do cinema

 

Alfred Machin era um funcionário da Pathé. De origem belga, era uma espécie de cinegrafista da empresa francesa naquela região da Europa. Nos primeiros anos do cinema, ainda não havia autores e exigências artísticas. Portanto, o terreno ainda era fértil para a expressão cinematográfica.

Não se pode dizer que Machin se tornou um autor do cinema – a falta de uma perspectiva completa de sua obra e seu esquecimento perante a historiografia oficial, provam, antes, o contrário. Também contribui para afastá-lo do tipo de reputação que se inveja, a sua dedicação a gêneros menos nobres, como o documentário etnográfico e as fitas de mistério e suspense.  E se o seu nome reivindica algum espaço, por menor que seja, no panteão dos grandes cineastas, isso se deve, estritamente, a um drama pacifista, “Maldita seja a Guerra!” (1914), considerado sua obra-prima.

Na recente III Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, realizada pela Cinemateca Brasileira, Machin se alinhou à casta dos “poetas esquecidos”  que o evento se propôs a resgatar, ao lado do chinês Sun Yu (Amanhecer/1933), da estrela e militante ecológica canadense Nell Shipman (De Volta à Terra de Deus/1919), do francês Jean Durand (A Ilha do Amor/1928) e até do pioneiro português Silvino Santos, responsável pelas primeiras imagens da Amazônia.

Naturalmente, todas as atenções se voltaram para “Maldita seja a Guerra!”, como de regra aos outros filmes “com mensagens” ou dotados de “certo exotismo cultural”. Nem mesmo os extraordinários “Maldone (1928)” e “O Homem do Mar (1920)”, respectivamente de Jean Grémillon e Marcel L’Herbier, dois nomes consagrados do cinema francês e mundial, receberam maiores distinções. Quase o mesmo destino teve “O Solar do Medo” (Le Manoir de la Peur, 1927), co-realizado por Machin e Henry Wulschleger.

Mas essa fita assombrosa, em todos os sentidos, talvez seja a melhor síntese possível da razão de ser de eventos como a Jornada. Mais do que uma revelação ou do gosto da descoberta, essa obra-prima notável, realizada sem maiores pretensões e que se vale da mitologia e da tradição francesa no gênero fantástico, comprova a vitalidade do cinema de gênero em qualquer época, sua vocação popular e sua capacidade de ultrapassar grandes projetos artístico-ideológicos com uma modernidade e clarividência impressionantes.

Em “O Solar do Medo”, uma pequena vila francesa entra num clima de crescente pavor depois da chegada de uma misteriosa figura, diretamente inspirada na personagem fatal de “A Morte Cansada”, de Fritz Lang, que se instala num solar abandonado.  Acompanham o forasteiro, seu criado Cagno e a chimpanzé Helô. Dotado de uma inteligência fora do comum, logo percebida pelo inescrupuloso Cagno, o símio é treinado para invadir as casas da vila à noite e roubar objetos de valor. Sem deixar traço, apenas uma inusitada e apavorante sombra, amplificada pela fotografia expressionista de Mario Badouaille, os pequenos furtos logo adquirem uma conotação sobrenatural. Para guiar o animal, Cagno inscreve um pequeno símbolo na porta da casa a ser “visitada” por  Helô – a marca remonta o sinal siciliano equivalente a uma condenação à morte.

Antes de se descobrir o real propósito do sinistro visitante, a ganância de Cagno e a fidelidade cega da chimpanzé, conduzirão a todos a um dos mais eletrizantes desfechos - com direito a sofisticada montagem paralela - da história do cinema.

Para além das influências - notadamente de “O Gabinete do Dr. Caligari”, pela óbvia semelhança do macaco com o autômato César - a originalidade e força poética de “O Solar do Medo” está na sua “impessoalidade” em favor do filme. Coisa que só um “funcionário” como Machin poderia nos oferecer. À serviço do cinema, deveria ser o seu lema. Nada mais anacrônico e necessário para os dias hoje, não?

 

 

Inimigos Públicos

O sacerdócio de Mann

 

Certa vez perguntaram a Jacques Rivette, o que é o cinema? “Luz, distância e escolhas”, resumiu. Essa poesia que emerge da métrica e do extraordinário trabalho com o espaço fílmico é o que faz a grandeza de “Inimigos Públicos” (Public Enemies, 2009), de Michael Mann. E tudo começa com uma escolha: filmar em digital. A possibilidade da câmera-móvel, trêmula, ágil e, ao mesmo tempo, os grandes e reflexivos planos, tão cinematograficamente compostos!  Pode-se falar, sem exagero, numa moral das imagens.

Se a trajetória de John Dillinger e seus comparsas remonta aos antigos seriados de televisão, há algo aqui, para além da textura das imagens, que resgata essa dívida. Provavelmente, a articulação clássica entre trilha sonora, personagens e texto.

No entanto, “Inimigos Públicos” é menos uma narrativa, do que um traçado, quer dizer: temos uma geografia mais do que uma história. Um homem em movimento, cuja utopia era encontrar um lugar onde queria estar...

Toda a progressão dramática do filme se desenvolve em torno das escolhas do espaço. Naturalmente, são os locais por onde passa esse homem sem futuro e psicologia - sobre o qual tudo que precisamos saber se resume a duas ou três linhas - que conformam seu destino, sua persona. É o suficiente para testemunharmos seu itinerário e para amá-lo.

Da primeira à última cena. Do pátio externo de uma penitenciária à sala de exibição (theatre), corredores, estações de trem...Os enormes bancos e seus cofres. São dessas locações que provém toda a poética de Mann.

Não por acaso o registro do fim de uma era, a dos crimes-espetáculos, é admiravelmente sintetizada na constatação de que a coreografia dos assaltos, na qual Dillinger era mestre, é ultrapassada subitamente pela nova mecânica do crime, representada por um porão repleto de telefones, através dos quais é possível fazer “rios de dinheiro” com apostas.

Claro, falamos dos anos 30, do século passado, época em que se acreditava também no cinema como espaço de reordenamento do caos da vida, desse mundo sem lei. Reafirmar essa fé nos dias de hoje, não é menos que um sacerdócio para Michael Mann.

 

Marguerite Duras
O “Durastógrafo”, uma proposição...

É mais do que particular ou original. A produção audiovisual de Marguerite Duras requer, sobretudo, imaginação. Como no caso de Bresson, que recuperava o termo “cinematógrafo”  para sintetizar sua busca estética, talvez seja apropriado pensar em algo semelhante, um “Durastógrafo”, para nortear essa imersão nos filmes da cineasta e escritora francesa.
Tal movimento remonta às origens, do cinema: o registro mecânico e inescrupuloso da máquina como porta aberta a novas  percepções e captação do invisível (Bresson); e da arte: esse partilhamento, comunhão do processo artístico (Duras).
Talvez o cinema, eterna promessa de síntese de todas as artes, seja o meio ideal para expressar tamanha generosidade.  Em suas obras, o que Duras nos oferece, entre outras coisas, é a oportunidade de criar também. Imagens, narrativas, espaços. Porque seu impressionante trabalho fora de quadro nos convida a partilhar do seu processo criativo. Seus filmes estão para além de nossas capacidades e,  pelo esforço que nos impõe, nos torna melhores. Ao fim de cada um deles, mais capazes.
Pode soar esotérica, quase neurolinguística a abordagem...Mas não há o pragmatismo da interatividade, nem estamos no território sem lei das instalações.  Ao contrário, os filmes de Duras são interativos e, às vezes, têm a forma de instalação, por outro lado é notável sua anterioridade...Estão lá, parecem se emanar de muitos séculos atrás, antes dos dois termos e práticas existirem...São um mergulho nessa motivação original...que se perdeu. Surgem como índices dessa perda, hoje cada dia mais irremediável. Como Bresson, nos faz pensar em como seria o cinema de volta às origens do cinematógrafo, Duras sugere o que seria de nós com a arte. Sem a arte, já sabemos bem.

 

Marguerite Duras

Cartografia

 

"Era preciso descer a falésia,

vencer o medo.

O vento sopra do continente,

repele o oceano.

As ondas lutam

contra o vento.

Elas avançam,

ralentadas por sua força,

e pacientemente

alcançam a parede.

Tudo se esmigalha

Eu te amo

mais além de ti..

Eu amaria quem quer.

que ouça que eu grito

que te amo.

Trinta mil anos.

Eu chamo.

Eu chamo aquela

que me responderá.

Eu quero te amar.

Eu te amo".

 

Trecho de “As Mãos Negativas”, de Marguerite Duras.

Tradução: Maurício Ayer

Prime Suspect e The Shield
Dois policiais wellesianos

 

A busca da verdade exige um percurso. Tanto melhor quando  cabe a arte revelá-lo. Orson Welles, por exemplo, tinha o seu próprio caminho. Provavelmente, a questão central de sua obra tenha sido descrever esse estranho itinerário, do qual o inspetor Quinlan em “A Marca da Maldade” é peça-chave.

Podemos dizer que os detetives Vic Mackey (Michael Chiklis) e Jane Tennison (Helen Mirren) nasceram de uma costela de Quinlan. Para quem não está familiarizado com o universo das séries de tevê, convém informar que eles são, respectivamente, os protagonistas de “The Shield” e “Prime Suspect”, dois triunfos do gênero policial no âmbito televisivo.

Ambos compartilham com o alter ego de Welles essa procura algo acinzentada e instintiva pelo verdadeiro em meio ao caos. E o mais interessante é que nem a  integridade à toda prova da detetive de Mirren, em contraposição ao cinismo de Mackey, exime, um ou outro, do sentido trágico, devastador embutido em tal ofício.

Não havia redenção possível para Quinlan, que precisava forjar provas para restabelecer a verdade, encontrar um culpado para os crimes. Também não há qualquer traço de pacificação para Tennison e Mackey ao longo das sete temporadas de cada série.

Como o avatar wellesiano, eles temem o crepúsculo de suas carreiras por estarem irremediavelmente feridos, absorvidos pelas trevas do cotidiano policial – e porque não dizer humano.

Sem suas insígnias, só lhes resta a vida “comum”, civil, aquela mesma vida profanada e caótica, sobre a qual eles conservavam a ilusão de poder ordenar, impor algum tipo de justiça.

Tem muito a ver com o processo de criação, da arte em si. Daí a relevância das duas séries, atualmente exibidas desde as primeiras temporadas nos canais pagos. “Prime Suspect”, às terças, no Megapix; e “The Shield”, às quartas no People and arts (Primeira temporada) e sextas (Sétima temporada) no AXN.

Não fosse por outros tantos motivos, bastaria um olhar mais atento sobre o cuidadoso ritual de Tennison antes de cada interrogatório ou a extraordinária complexidade de Vic Mackey, em sua fascinante espessura (a)moral, para reconhecer a poética desses dois anjos caídos. Tal como Quinlan, condenados ao esquecimento e à solidão.

A mise-en-scène do corpo

 

“Queria que a alma fosse o corpo”

Trecho de Je Vous Salue Marie, de Godard

 

Pode sugerir misantropia, mas qualquer grande ator precisa incorporar ao seu repertório dramático certo grau de automatismo. Robert Bresson já sinalizava para essa necessidade ao preconizar seus “modelos de vozes brancas”, o tom monocórdio e a ausência de psicologia na construção dos personagens. Não por acaso, Hitchcock, por outros meios, compartilhava da mesma idéia ao minimizar a importância dos atores em seus filmes. Há ainda uma célebre imagem de Fritz Lang orientando Brigitte Helm nas filmagens de “Metropolis” em que a atriz mais parece uma marionete, tamanha a precisão das indicações do cineasta. 

Tal mecânica ganha ainda mais relevo nos dias de hoje, quando a maior parte dos realizadores não tem a mínima idéia do que querem de seus atores. Cabe a cada um se virar por conta própria. Tome-se como exemplo recente Mickey Rourke em “O Lutador”. Darren Aronofsky se limita a seguir os passos do ator. E não é um documentário!

A câmera na mão, quase sempre no cangote de Rourke, não revela, mas, sobretudo, não se posiciona sobre o que é mostrado. Apenas registra, como diria Bresson, “com a falta de escrúpulos de uma máquina”.

Naturalmente, então, o corpo de Rourke se impõe como a mise-en-scène ausente do filme. São seus gestos mecânicos (pois repetitivos), como o bater nos cotovelos antes de cada luta ou a dança inusitada para Marisa Tomei, entre outros momentos, que conferem força criativa, elã e ritmo ao filme. Eles nos prepararam para o grande momento de epifania de “O Lutador”: o reencontro, para além das mudanças físicas, do rosto deformado, da incidência do tempo, com a mesma potência de olhar do início da carreira de Rourke, surpreendentemente intacto apesar dos anos de aviltamento, no caso do ator e do personagem também.

Ainda mais admirável é que “esse resgate” nada tem a ver com um eventual processo de sensibilização de um homem rude ou boçal – em nenhum momento da trajetória de seu personagem ou de sua carreira, Rourke demonstrou falta de sensibilidade, antes o contrário, uma vulnerabilidade enorme, da qual o seu corpo é  testemunha.

Portanto, a grandeza de “O Lutador”, como filme, é restaurar esse corpo como espaço vulnerável, mas também abrigo, daquilo que somos e preservamos, independente das aparências. E devemos tudo isso a Rourke, um ator.

Duas obras-primas de nossa época (?!)

Se a política dos autores não tivesse sido formulada há mais de 50 anos e o regime do star system continuasse em vigência como naquela época, ainda assim "A Troca" seria, sobretudo, um filme de Clint Eastwood. Não importa que hoje não houvesse um Truffaut, um Godard, Rivette ou Rohmer. As grandes obras têm esse poder de despertar o melhor de cada um, de nos ultrapassar...E tal evidência se imporia.
Não é exagero afirmar que há tão poucos críticos da estatura de um Chabrol ou de um Bazin atualmente, por falta de mais filmes como "A Troca". É que o estatuto artístico e autoral conquistado pelo cinema, particularmente após a Nouvelle Vague, baixou a guarda da crítica, arrefeceu as paixões. E essa falta de combatividade pode embotar os sentidos.
O amor exige provas constantes para manter-se intenso. "A Troca" nos oferece, pelo menos,  uma irrefutável, a mais importante: a de que, em se tratando de cinema, a mise-en-scène é tudo.  Que dizer: se imaginássemos o filme de Eastwood sem diálogos ou com outra atriz qualquer que não Angelina Jolie e a história dessa mãe em busca do filho desaparecido se traduzisse unicamente em imagens e sons, teríamos "A Troca" em sua integridade artística.
Talvez por isso Eastwood não tenha se incomodado em assumir um projeto sob encomenda para outro cineasta de perfil e trajetória tão diferente do seu quanto Ron Howard.
E se tal argumento, o triunfo da mise-en-scène, soa demasiado abstrato ou subjetivo, convém sugerir outro exercício: há algum diálogo particularmente inesquecível no filme? Angelina Jolie ou John Malkovich nunca fizeram algo parecido antes? Há alguma revolução da linguagem cinematográfica?
Por outro lado, como esquecer a austeridade das interpretações de ambos ou não notar a cadência musical da câmera de Clint; a solidão, o vazio, a tristeza que evoca o seu passeio pelos cômodos vazios da casa da protagonista. É um efeito restaurador, o que dependendo do contexto pode ser a maior das ousadias.
Em tempo: a música também é assinada por Clint Eastwood. Não por acaso, ela surge antes da primeira imagem do filme. É o estado de espírito que norteia "A Troca". Sua relação com o que é que mostrado nunca é de subserviência, de complemento. Eastwood constrói essa autonomia na exata proporção dos sentimentos que ela é capaz de expressar. A isso também chamamos de poética. Do contrário, qual a razão de se levar para as telas mais uma dita história real?
Já o não menos belo "O curioso caso de Benjamim Button", de David Fincher, nos propõe outra questão pertinente: Porque adaptar um livro, no caso um conto de Scott Fitzgerald? Uma resposta possível: para mostrar o mecanismo de um relógio às avessas, que conta o tempo de maneira regressiva. Um objeto, cuja simples existência/presença transcende qualquer descrição. A isso chamamos de cinema, do "específico fílmico" dessa arte dos exteriores. Outrora já fora "a grande metáfora" que os norte-americanos nos ensinaram a amar. Perdoem a tautologia, mais é de amor e de provas que se trata tudo isso.

Epitáfio
Onde jaz nossa esperança?

Guerra Conjugal e Vereda Tropical

A utopia do cinema popular

Um filme também é cor, décors, tipos e texturas. Antes mesmo que os diálogos, a trama e a mise-en-scène, certas obras parecem se definir, num primeiro momento, por esses elementos formais, geralmente considerados secundários.  É o caso de “Guerra Conjugal” (Brasil, 1975), de Joaquim Pedro de Andrade.
Diagnóstico dessa “psicopatologia amorosa”, nas palavras do cineasta, da qual ninguém se exime por completo, nem está imune, o filme propõe uma aproximação quase arquetípica do universo iconoclasta e classe média do escritor curitibano Dalton Trevisan.  Extraídos do cotidiano, entre a repartição pública e a alcova, os personagens que compõe “a civilização terno-e-gravata”, a que se refere Joaquim Pedro,  não estão em exposição, como numa vitrine ao alcance de nosso olhar fetichista e confortável.
São carne, osso e pele,  em meio aos paetês e lantejoulas, por trás das cortinas rosadas, sobre as camas redondas dos motéis. Do chefe boçal e aproveitador, à garota arrivista que se deixa seduzir, passando pela amante sempre generosa; tudo é reconhecível, próximo, familiar. Cenas da “vida como ela é”, mas sem a verve trágica de um Nelson Rodrigues.
Os clichês, o kitsch das situações e ambientes; mesmo a misoginia incontornável do gênero a que o filme se filia – a pornochanchada -  estão presentes sem maiores escusas, como índices, nunca como finalidade. É um filme para as massas oferecido pelo talento generoso de Joaquim Pedro.
Pois ele não encara o espectador com censura, muito menos o “gosto do público” como restrição ao que lhe interessa filmar. É uma relação de igualdade, que rejeita o pressuposto intelectual ou elitista. Joaquim Pedro se entrega a essa empreitada com uma sinceridade insuspeita.
Antídoto - O que, naturalmente, aproxima “Guerra Conjugal”  do curta “Vereda Tropical, realizado dois anos depois, como parte do longa-metragem “Contos Eróticos”.
Outro exemplo dessa utopia de cinema popular, a pequena obra-prima lúbrica de Joaquim Pedro é um antídoto contra a vulgaridade.
A história de um professor que se satisfaz sexualmente com frutas e legumes, é literal e refinada. Cláudio Cavalcanti, o protagonista, descreve para a aluna, suas peripécias com melancias, abóboras e afins, com a naturalidade dos puros.
Na análise das implicações econômicas de “degustar” uma fruta fora de estação, igual a uma diligente dona de casa, ele versa sobre as alternativas leguminosas à sua libido, numa aula de economia das mais saborosas.
Na feira, no ferry boat ou na orla de Paquetá, esse reichiano do hortifruti tece sua filosofia de maneira elegante e divertida. Não há a intenção de metáfora, sublimação ou qualquer espécie de alegoria. Seus métodos são diretos, práticos e subversivamente despudorados.
“Vereda Tropical” dá uma idéia do quanto aquela geração de realizadores acreditava num cinema próximo ao povo e de como tudo mudou desde então. E não só no Brasil.
O frescor e a inventividade de Joaquim Pedro, conservados tanto em “Guerra Conjugal” quanto em “Vereda Tropical”, comprovam a distorção desse percurso.
Engodo - Se, pelo menos no estilo e nos tons, essa duas obras prenunciam o “neon-realismo” francês, de Luc Besson à Jean-Jacques Beineix, característico dos anos 80; e os filmes de Pedro Almodóvar da década seguinte; não é menos irônico, para não dizer cínico mesmo, que, sem nenhum acaso, o espanhol e os “neon-realistas” franceses estão entre os definidores dos conceitos atuais de filme “cult” e de “autor”.
Aparência que justifica o engodo. Esse de que o cinema original e provocativo é algo para platéias reduzidas, de culto.
Há três décadas, Joaquim Pedro já se insurgia contra tal mentalidade de mercado. Hoje, seus filmes estão dispostos nas prateleiras de “cult” ou de “filme de arte” ao redor do mundo. E não só por uma imposição comercial, mas, ainda, por razões ditas estéticas e separatistas, sobre as quais todos temos alguma cumplicidade.
Resta a pergunta: e do que adiantou o esforço de Joaquim Pedro?

Joaquim Pedro de Andrade

A pedagogia da coexistência

 “O Aleijadinho” (Brasil, 1978), de Joaquim Pedro de Andrade, é um trabalho de sobreposição.  Nada mais adequado à forma, ao tema e ao propósito desse projeto.
Joaquim Pedro renuncia ao registro puro e simples em favor da coexistência. Das expressões artísticas: o cinema e a escultura. E também no âmbito da técnica: empreende uma operação táctil e antropomórfica rara na cinematografia mundial.
Ao percorrer a obra do grande artista mineiro Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, imprime tal relevo à superfície da tela, que cada traço, entalhe, sulco, milagrosa modulação e peça sacra se impõe como algo, ao mesmo tempo, concreto e espiritual.
Note-se que não há no percurso da câmera de Joaquim Pedro nada mais  que vultos de pessoas, pedra, madeira, ferro, edificações... E, mesmo assim, em nenhum momento sentimos falta da presença humana, nem sequer do movimento.
À imagem do filme sobrepõem-se imagens, de santos, apóstolos, ícones, resgatados de sua imobilidade, de sua própria natureza inanimada pela transmutação do processo artístico.
Para além dessa notável fusão dos elementos, há outra perspectiva não menos desafiadora: a do cinema educativo. O que só ressalta a atualidade e importância da revisão de “O Aleijadinho”.
Como “O Carro de Bois”, de Humberto Mauro, que rangia dolorosamente num lado (qualquer) esquecido do caminho – naquele retrato tão justo quanto desencantado da “triunfante modernidade brasileira” – o cinema como ferramenta educacional parece sofrer do mesmo abandono.
Do grandioso projeto “estado novista” para disseminar a educação através dos filmes, restaram vestígios, exemplos de entonação, vigorosos e distantes, como  “As Brasilianas”, de Mauro; ou este tardio “O Aleijadinho”, de Joaquim Pedro.
Obras representativas de uma época em que as “eventuais tarefas educacionais do cinema” eram entregues a artistas e não a técnicos pragmáticos.
A poética de Joaquim Pedro conserva essa naturalidade pedagógica de encarar a arte como instrumento, também, de revelação do mundo. Um mundo de camadas sobrepostas e intercambiáveis, de arquiteturas impensadas...Em certo sentido, epifânico. Como o mundo de Aleijadinho.

Batman
O Cavaleiro das trevas anuncia o fim do “cinema de arte”. Ainda bem!

O epitáfio pode parecer precipitado. Como outrora, pôde soar a publicação neste mesmo espaço da extinção do cinema narrativo. Mas há uma certa coerência nestas notas fúnebres. É que, o responsável pela “boa nova”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan, de um só golpe, põe fim a eficácia da distinção entre “cinema comercial e de arte”, como restaura a narrativa cinematográfica tradicional em todo o seu vigor.
A partir de agora, a diferença entre o filme dito artístico e o industrial, é algo estritamente econômico. A interessar apenas a contadores e financistas. Talvez sempre tenha – ou deveria ter – sido assim, mas precisávamos de um impacto da envergadura do atual “Batman” para recolocar a questão.
A obra-prima de Christopher Nolan reconfigura o mercado. Se é possível, dentro da estrutura de um blockbuster, produzir um filme de tamanha complexidade, então, felizmente, podemos virar a página “Sundance”, sem nenhuma saudade, do capítulo “o cinema contemporâneo dos EUA”. A meca do cinema “independente”, consolidada por Robert Redford, que já dava sinais de desgaste, agora está superada. Ainda bem!
O melhor cinema dos EUA, como é tradição, está sendo feitos nos grandes estúdios. Para as massas. De certa forma é algo que já se anunciava desde “Missão Impossível”, de Brian De Palma.
No entanto, De Palma conserva alguma reputação de autor. Mas o que dizer de David Fincher, com o seu extraordinário “Zodíaco”? E só neste ano, “O Homem de Ferro”, de John Favreau (!); e “Fim dos Tempos”, de M. Night Shyamalan?
Não há mais desculpas. Excetuando-se os grandes artistas que ainda fazem cinema – Straub, Pedro Costa, Sokurov, Rivette, Godard e Rohmer – os melhores filmes atuais vêm do “coração das trevas”, da demonizada Hollywood.
Esse renascimento do cinema popular, em larga escala, não apenas atualiza um legado, é uma questão de sobrevivência para o formato de distribuição que conhecemos: o da sala de exibição. Além do mais, cristaliza a assertiva que perpassa “Batman – O Cavaleiro das Trevas”: a de que o herói não existe sem o vilão e de que um acaba modulando o outro.
E não há como negar: o Coringa de Heath Ledger não é o único a embaralhar essas certezas, a imprimir nuances cinzentas nesse preto no branco.
Basta ver, por exemplo, o filme de Nolan e “A culpa é de Fidel”, de Julie Gravas, e se perguntar: onde está o cinema? Ou, quem precisa de “filme de arte”? Ele serve a quê? Julie Gravas e outros realizadores afins vão continuar a produzir. Um Rohmer, um Godard...Continuam com a mesma dificuldade. Não há mercado para eles, só para o circuito dos filmes de arte...
Na verdade, “Batman” está para o atual cinema norte-americano, como a “Idade da Terra”, de Glauber Rocha, esteve para o cinema brasileiro dos anos 80. É o ponto de virada. No Brasil, a promessa de construir um cinema na terceira margem, reserva criativa e original para oxigenação da linguagem, foi traída, abandonada pela incompreensão da beleza monumental de “A Idade da Terra”. Nos EUA, “Batman” é o restaurador. E o público de lá, talvez dê a resposta que negamos à Glauber. Eles retomam seu caminho e nós continuamos sem nenhum para trilhar...
Pois, mais contundente que qualquer brincadeira de Michael Moore, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” é o documentário de como os EUA vivem hoje. E tem a genialidade de tratar disso sob a maquiagem borrada do Coringa e a truculência tecnológica de Bruce Wayne. É político, sem panfleto ou espalhafato. Discreto, subterrâneo como seu personagem, o novo “Batman” é o filme da década!

A travessia de Shyamalan

É do cinema tornar visível as coisas, os seres. Até mesmo quando não é possível mostrar mais do que rastros, vestígios dessa ausência, é preciso encontrar um corpo, um módulo ou um formato de expressão. “Fim dos Tempos” (The Happening), do cineasta de origem indiana M. Night Shyamalan, é parte desse desafio do cinema em lidar com o invisível. E  Shyamalan o enfrenta com a mesma fé com que Moisés separou o mar vermelho para sua travessia.
Trata-se de acreditar nas imagens. O que, nos dias de hoje, implica num certo anacronismo, tão simbólico quanto as escrituras do “antigo testamento” -  não por acaso, os “dez mandamentos”, segundo a narrativa bíblica,  foram cravados numa pedra, elemento da natureza convertido em objeto narrativo, como as pinturas rupestres desde o princípio dos tempos.
Assim, mais do que índice de presença ou até mesmo signo, é por meio dos objetos que Shyamalan opera a arte, o milagre,  de se modular o que não tem forma definida. O vento, por exemplo, que inspirou o clássico de Victor Sjöstrom, tinha a areia lancinante sobre o corpo de Lilian Gish, casas e estradas para lhe atestar uma existência cinematográfica.
No filme de Shyamalan, o vento tem um papel importante. Parece ser o centro gravitacional de sua poética, quer pelo que evoca de belo como de assustador. Mas a travessia a que ele empreende não seria segura, não fosse pelo anel, a planta de plástico, o prendedor de cabelo, o cortador de grama e os outros incontáveis objetos que lhe indicam o caminho.
É mais do que uma ontologia dos objetos, porque, para além das suas respectivas naturezas e finalidades, cada um deles agrega novas possibilidades, funções, cadeias de ações e sentidos. Na notável cena entre Mark Wahlberg e a jovem Ashlyn Sanchez (Jess), logo após a menina mergulhar na apreensão da perda definitiva dos pais, há o anel do protagonista, cuja pedra que o enfeita acredita-se capaz de expressar os sentimentos, mas que aqui, antes de diagnosticar, produz um estado de espírito. O professor de ciência (Wahlberg) arranca um sorriso à criança em meio ao terror, pura e exclusivamente graças a esse apetrecho. Estamos no domínio da metáfora e o que é mais belo: ela ainda é possível no cinema.
“Fim dos tempos” se inscreve na tradição dos filmes tácteis de Hollywood, de “Desejo Humano”, de Lang; à “Cinzas que queimam”, de Nicholas Ray; nos quais tudo em cena evoca a presença, a trilha, o afeto humano, sem necessariamente enquadrar homens, mulheres, crianças na perspectiva da câmera. O fora de campo, é consciência da arte, aqui como acolá - quer dizer: naqueles tempos.
Pois se a destruição imposta pelo homem à natureza e vice-versa, no caso do  happening do filme, é mais do  que visível, aquilo capaz de interromper esse processo aparentemente irreversível transcorre nessa fronteira entre a fé e o inexplicável.

Pedro Costa
“Só deixamos os ossos...”

O cineasta português Pedro Costa não vem ao Brasil em agosto. Havia um convite para ministrar master class em festival na Bahia. Nem seus filmes. O autor de “Juventude em Marcha” entrou em litígio com o Instituto Camões por discordar do formato, em DVD, através do qual seus filmes estavam sendo exibidos. No entanto, apenas o seguro de uma das cópias em 35mm dos seus primeiros filmes - “Sangue”, por exemplo – ultrapassa os 3 mil euros.
Assim, resta matar a saudade de Pedro e suas extraordinárias obras por outros meios. Confiram trecho de entrevista publicada pelo Jornal de Notícias, com a assinatura de  João Antunes...

Como viveu a experiência no Festival de Cannes?

Pedro Costa - Foi divertido porque levei alguns atores do filme {Juventude em Marcha}. O objetivo era divertir-nos e mostrar o que é o outro lado. Eles só conhecem o lado do trabalho, às vezes chato, nem sempre entusiasmante, e eu quis mostrar um mundo que está a anos-luz de nós. Fomos jantar a casa dos ricos, é isso que a gente diz. Só deixamos os ossos e viemos embora.

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